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Jair Neves da Silva

1955 - 2020

Sua via foi um testemunho vivo de que a verdadeira bondade reside na essência, jamais na aparência.

Jair deixou um testemunho de vida muito forte; provou que a essência da uma pessoa reside no núcleo de seu caráter, em sua origem afetiva. Pouco importa a cor de sua pele, o quanto é capaz de acumular em bens materiais, qual é a sua formação acadêmica, sua aparência física, sua etnia ou orientação sexual.

Durante muitos anos Jair viveu como travesti, e não é segredo para ninguém o quanto é desafiador ser um travesti em um país que ainda engatinha rumo ao respeito à diversidade, como é o nosso. Ninguém sabe ao certo o porquê; mas, em determinado ponto de sua vida, Jair abriu mão de suas vestes e personalidade exterior femininas. Por dentro, no entanto, ele era a mesma pessoa: digna, honrada, empática e generosa.

Tornou-se muito católico e passou a participar de várias atividades de devoção, relacionadas à religião recém abraçada, como grupos de oração, terço dos homens e Ministério da Eucaristia. Coordenava a comunidade e cantava no grupo de louvor. Encontrou abrigo naquele lugar, sentiu-se acolhido. Para ele não havia tempo ruim quando se tratava de servir, é assim com as pessoas cujo coração reverbera gratidão.

Profissionalmente exercia o ofício de cabelereiro, exímio nos cortes de cabelos e na escovação. Extremamente caprichoso, deixava suas clientes sempre muito satisfeitas com seu trabalho.

Jair não teve filhos nem esposa, mas realizou-se por meio de sua religião e construiu uma verdadeira família formada por amigos e clientes. Será impossível não sentir saudades.

Jair nasceu em São Gabriel da Palha (ES) e faleceu em Vila Velha (ES), aos 65 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela amiga de Jair, Juliana Bonizioli. Este tributo foi apurado por Andressa Vieira, editado por Vera Dias, revisado por Ana Macarini e moderado por Rayane Urani em 1 de janeiro de 2021.