Sobre o Inumeráveis

Antônio de Oliveira Costa

1936 - 2021

Suas palavras de acalento - tudo passa - andavam com ele e confortavam quem estivesse aflito.

Era um homem cheiroso, de andar elegante, sempre com sua inseparável boina. Ele nasceu na cidade potiguar de Pedro Velho e tinha apenas quatro anos quando perdeu a mãe. Foi criado pela segunda esposa de seu pai, que ele considerava como mãe. Na adolescência, Antônio deixou seu estado de origem e seguiu para Brasília.

Suas mãos, na época jovens, ajudaram a erguer a capital federal, onde trabalhou como torneiro mecânico. Dizia existir uma foto dele apertando a mão do presidente JK durante a inauguração de parte de uma obra. Ele não tinha a foto, mas sempre que falava sobre ela dizia: "Eles devem ter essa foto aí, em algum lugar".

Antônio e a esposa foram casados por cinquenta e nove anos. Eles se conheceram no Rio Grande do Norte, passaram por Brasília e foram já casados para o Rio de Janeiro. Moraram na Maré, lugar onde os filhos nasceram e cresceram. Em 1997, Antônio conseguiu construir uma casa em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro. A casa era linda, um de seus maiores orgulhos. Mas ele nunca dizia que era dele. Dizia que "estava ali só tomando conta". Ele sempre teve noção da finitude de todas as coisas.

Era um avô maravilhoso, carinhoso que só ele. Amava fazer churrascos em sua casa reunindo os quatro filhos, os cinco netos e as três bisnetas. Foi um pai muito presente, orientando os filhos e ajudando nos momentos mais difíceis. Vibrava com cada conquista.

Antônio destinou uma parede da casa para as fotos dos filhos e netos com suas becas de formatura. "Todo mundo que se formava na faculdade tinha que fazer um quadro com a foto e mandar pra ele", conta a neta, Ingrid. "Ele exibia aquela parede com muito orgulho, era a sua exposição preciosa". Ele apostava na educação, estimulando todos a estudar.

Era muito fã de Luiz Gonzaga, sempre colocava suas músicas para tocar nas festas, e "Asa Branca" era a sua favorita. Torcia pelo Flamengo, mas, apesar de ter a camisa do time, nunca foi muito afoito com futebol. Amava ver programas sobre a vida animal e, como bom nordestino, apreciava as comidas típicas: feijoada, rabada, vaca atolada, mocotó. Mas o prato que ele mesmo fazia e todos amavam era dobradinha. Era uma delícia!

Foi um homem muito esforçado. Mesmo após a aposentadoria, seguiu trabalhando; para ele, era também um hobby. Tinha um armazém no bairro, que mantinha com a ajuda da esposa. Nos últimos seis anos ele tirava dez dias para viajar com os filhos para o Nordeste. Foram para Pernambuco, Rio Grande do Norte, Alagoas, Sergipe e Paraíba. Ele aproveitou bem!

Antônio sempre dizia que "tudo passa". Uma das netas eternizou a frase tão proferida pelo avô com uma tatuagem no braço. Costumava dizê-la quando conversava sobre problemas do dia a dia com seus filhos e netos, aconselhando-os. A sabedoria e a calma de quem já havia vivido muito permeava suas palavras e confortava quem as ouvia, mesmo que ele fosse conhecido por ser "bem brabo".

Foi forte. Enfrentou problemas no coração, cirurgias e tratamentos contra o câncer quando já estava na casa dos 70 anos. A família tinha a sensação de que ele era imortal. "De uma certa forma, sempre achei que ele viveria para sempre" diz a neta. Um avô cheiroso e carinhoso que amou demais e foi muito amado também.

Antônio nasceu em Pedro Velho (RN) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta de Antônio, Ingrid Silva de Oliveira Leite. Este tributo foi apurado por Lucas Cardoso e Karina Zeferino, editado por Raphaela Costa, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 17 de setembro de 2021.