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Beraldina José Pedro

1945 - 2020

Tomava banho, cantava e rezava de madrugada, como um ritual de gratidão.

Adotar era para ela o mesmo que adorar. Ela só falava a linguagem do amor.

Foi dessas que só sabem amar a ponto de dar seu lugar no mundo para alguém mais jovem experimentar o que ela própria tinha de sobra.

Seu nome deveria ser "Amorosa" — uma mulher que parece ter sido gerada em um favo de mel, de tão doce criatura que era. Agradeço aos seus pais por darem a mim essa mãe, mesmo depois de bem-criado, e ainda assim, poder experimentar uma outra intensidade disso, que para muitos sempre fica no subjetivo, o verdadeiro amor de mãe.

Ah, ela gostava de abraçar, afagar, cuidar e, especialmente, cantar; sua nave para a plena extasia. Tinha aquela fé de mover montanhas e foi, entre as montanhas, que fez descer para o mundo as águas de suas raízes, entranhas da terra, por quem sempre lutou bravamente o berço para guardar seu corpo por merecimento.

Conseguiu a liberdade de seu povo e pôde viver a paz, mesmo momentânea. A luta lhe foi generosa e, ao menos por um tempo, deu-lhe tempo para refletir, desfrutar o silêncio, antes impossível, dado ao tempo das correrias.

De tempo, ela bem entendia e atendia aos desígnios da fé e do talento, nas horas mais improváveis para os simples comuns. Tomava banho, cantava, rezava e, por tradição, fazia esse ritual de gratidão sempre às três horas da madrugada, ou às duas, ou à uma, ou até mesmo nem dormia, como no tempo das vigílias.

O mundo grande nunca deixou de fascinar Bernaldina. Foi também, desse mundo grande, que vieram os maiores sofrimentos, por tanta violência que a ganância promove. Caminhou resistente, sempre serena, pisando em diamantes. Sabia que os cristais eram preciosos e que Deus deixou aquilo lá para completar sua natureza. Lutou cantando.

Conflitos deixaram-na viúva muito cedo, mas nunca desistiu de sua entrega, criar e amar cada filho com a mesma intensidade e que viessem, mais e mais.

Percorreu o mundo e, embora poucos mencionassem, era uma artista singular. Foi merecedora de muitos dons, ou, não exatamente isso, o fato é que sabia que caminhar por aí, exigiria dela, saber as trajetórias. Assim, falava um português de estratégia, sua língua mesmo era o Makuxi e o amor incondicional pela vida, pela fartura, pelo belo, pelo alegre e colorido.

Gostava de dançar, tomar caxiri e dar bons conselhos.

Por ironia, foi o amor a sua casa que a fez sair da quarentena para “cuidar das coisas”.

Foi, e de um certo modo, não tinha certeza de nada e foi assim mesmo para sua casa nas montanhas, onde esperava estar mais escondida da terrível peste que se manifestava.

Ela dizia: esses brancos já criaram outra doença e ainda ficam falando toda hora sobre isso. Por medida combativa, fazia seus rituais: resina, pimenta e enérgicas ordens orais, para que o bicho do adoecimento não se aproximasse de nosso esconderijo.

Tenha quase certeza, que foi por amar demais, que minha mãe o contraiu. Deve ter sido dando algum abraço, ou benzendo alguma criança adoentada, ou fazendo suas honrarias de bem-receber em sua comunidade àqueles que lá chegavam. Foi amando que Bernal adoeceu. Como poderia suspeitar que, ao servir seu amor ao outro poderia encontrar precocemente o endereço da morte.

Então, é desse amor absoluto que devemos nos lembrar sempre. Não tinha hora para ser prestativa. Ainda tinha muita força e serenidade. Os 75 anos de idade biológica não combinavam com seu espírito puro, como o de uma criança cheia de vida. Nunca teve medo de partir, mas também achou que dessa forma não foi uma boa passagem; e bota sua partida triste na conta de seu maior inimigo, o governo desastroso do Brasil atual, que não faz o mínimo esforço para garantir a aplicação dos direitos aos povos indígenas, para o que tanto lutou a nossa mestra. A memória de Meriná não pode ser apenas de doçura, mas de bravura, como bem fazia ao fechar o semblante diante das injustiças, quando a flor virava onça e defendia. A Liderança pura da guerreira Meriná deve inspirar a revolução, lutemos por justiça, sempre.

Depoimento do artivista Jaider Esbell, filho adotivo da Vó Bernal, do povo Makuxi, da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Este texto foi apurado e escrito por Giovana Madalosso e revisado por Lígia Franzin.

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Vovó Beraldina era considerada mestra da cultura Macuxi.

Perdemos Koko Meriná Eremu, diz uma nota do IEB, Instituto Internacional de Educação do Brasil, uma das anciãs mais ativas da cultura Macuxi, da comunidade do Maturuca, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

O IEB lamenta profundamente esta perda e reforça os sentimentos contidos nas palavras dos parceiros do CIR: “Vó Beraldina deixa sua trajetória de resistência pelo mundo para as futuras gerações. Que Deus e nossos ancestrais a recebam em seus braços”.

Beraldina nasceu em Maturuca, Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR) e faleceu em Boa Vista (RR), aos 75 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela conhecida de Beraldina, Silvonei José. Este texto foi apurado e escrito por Patricia Silva, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 11 de julho de 2020.