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Edvan José da Silva

1975 - 2020

Apaixonado por carros, ele os caracterizava como em seus filmes favoritos.

Ele era querido por todos pelo seu jeito alegre, espontâneo, brincalhão e honesto. Era o mais velho de três irmãos e foi casado com Viviane com quem teve quatro filhos: Lucas, Júlio, Brenda e Ana Clara.

Os dois se conheceram ainda na escola quando ela tinha 13 e ele 14 anos. Eram de salas diferentes, mas se apaixonaram assim que se viram. Quem não gostou muito da ideia daquele namoro foi sua mãe, que o tirou da escola. A manobra não surtiu o efeito esperado e dentro de muito pouco tempo já estavam praticamente morando juntos. Casaram-se num 13 de agosto, ela com 18 e ele com 19 anos, e cumpriram os votos do casamento. Quando a morte os separou preparavam-se para comemorar seus trinta anos de casados com uma bela viagem.

A filha Brenda conta que o relacionamento dos dois era engraçado, porque de tão parecidos acabavam discordando e brigando por tudo. As únicas coisas que faziam em paz eram brincar e dançar.

Edvan gostava de fazer festas, mas não de gastar dinheiro com elas... Viviane as preparava com esmero e para isso ela tinha que gastar. Ele as curtia e ficava em êxtase, mas só durante, pois quando tudo passava, ele ficava questionado: “Pra quê gastar dinheiro com isso?” E lá vinha mais uma briga...

Muito ligado à família, gostava de ter todos unidos e sempre se entusismava com isso. Domingo era dia de churrasco, música, risada e muita dança, já que em sua casa ninguém era de ficar parado. Ele se divertia à beça e depois de se fartar, falava “...Meu, faz outra coisa, churrasco é muito caro” ...

Tinha mania de limpeza e organização. Não gostava de nada sujo nem desarrumado, e as coisas tinham que estar do jeito dele. Havia uma rotina de limpeza e ele sempre conferia o serviço, exigindo que estivesse tudo intacto e em seu devido lugar.

Brenda recorda que a rotina doméstica consistia em “acordar muito cedo e limpar a casa toda. Era necessário que estivesse extremamente limpa; as panelas sempre areadas; o banheiro lavado todos os dias... Nós temos cachorro, então até o quintal era limpo todos os dias. Meu pai não podia ver um prato fora do lugar, nada ficava fora do lugar.”

Os filhos acabaram por assimilar essa rotina depois de casados, em suas próprias casas, enquanto ele, tendo só a filha mais nova ainda em casa, mesmo assim continuou cobrando de Viviane que ela acordasse cedo. E aí, eles que se amavam tanto, acabavam brigando, "como o gato e o rato”, diz Brenda.

Ele amava dançar axé, samba, rock, pagode, forró e não escolhia lugar para isso. Dançava no trabalho, em casa e até na rua se conseguisse! Diz ela: “Meu pai era muito extrovertido e eu sou tímida. Um dia ele foi na balada comigo, me puxou para dançar e me colocou em cima do palco para cantar com os sertanejos. Fiquei morrendo de vergonha, mas fui! E foi bem divertido!” E arremata: “Ele fazia graça com tudo, mas sabia ser bravo quando precisava".

O pai era muito seu companheiro e ela se recorda de muitas histórias engraçadas para contar sobre ele: “Meu aniversário de 15 anos, foi incrível! Eles fizeram a festa dos sonhos, foi perfeita, com direito a tudo que eu gostaria que tivesse. Ele me transformou em princesa, me fez a melhor festa da vida”.

Edvan exerceu várias profissões. Foi bombeiro, eletricista, pedreiro, porteiro; mas, na visão da filha, ser pai foi sua profissão mais importante, por não considerar fácil a tarefa de cuidar de quatro filhos e uma casa, e essa ele também exerceu com maestria e dignidade.

Além da família, Edvan alimentou duas outras grandes paixões na vida. Uma delas era a fé e a confiança em Deus, mesmo sendo um evangélico que não frequentava igreja nenhuma. Ele afirmava: “Quando dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali eu estarei”. Ele acreditava que Deus estava em sua casa e com sua família e, quando precisava, tinha "um particular" com Ele: um momento a sós, em oração.

A outra paixão veio dos tempos de criança e acabou por contagiar a ele e aos irmãos: os carros que apareciam em filmes como Velozes e Furiosos, em especial os carros do Brian. Sua paixão era tão grande, que chegou a equipar o carro inteiro com os adesivos e colocou nele as mesmas peças do carro do filme para ficar parecido.

Ele amava os carros antigos e os personalizava como nos filmes. Eram um Cadete e o Chevette cheio de luzes vermelhas embaixo, que ele ligava à noite e que, infelizmente, foi roubado — fato que o deixou muito desolado.

As marcas deixadas por Edvan foram a alegria que ele transmitia e a luz que ele possuía. Sempre fez muito bem a todos e não cultivou inimizades. Se fosse para alegria de algum dos membros de sua família, ele topava quase tudo... esforçado e trabalhador, concretizava sonhos, ouvia e dava ideias, numa conexão familiar muito importante para todos, mas principalmente para Brenda, que desde criança possuía dois deuses, um no céu e outro na terra: seu pai.

Edvan, mesmo não estando mais presente fisicamente, continua a ser o seu orientador de sempre: “Ele era nosso alicerce, a primeira pessoa da nossa árvore. Ele resolvia tudo da família dele e da nossa. Hoje, tudo o que eu vou fazer eu penso 'o que meu pai faria?'”

E assim seguirá para sempre como o maior mentor da família.

Edvan nasceu em Cupira (PE) e faleceu em São Paulo (SP), aos 45 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Edvan, Brenda Marcelino Silva. Este tributo foi apurado por Claiane Lamperth, editado por Vera Dias, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 12 de setembro de 2021.