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Evaldo de Andrade Costa

1949 - 2020

Ímpar na generosidade. Seu violão roubava a timidez. Seu amor pela família e amigos mostrava quem ele era.

A companheira, Márcia, não tem como começar esta homenagem sem ser com um poema:

Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Evaldo. Advogado ético e compromissado. Companheiro dedicado e carinhoso. "Daqueles que deixam o chinelo na porta para eu deixar ali o meu cansaço depois de atender a muitos pacientes. A salada que gosto, me esperando na mesa. A conversa solta... casos, desabafos, confissões, problemas e soluções em meio a uma taça de vinho ou um copo de whisky. As brincadeiras, a paciência com meu gênio forte e combativo que, com uma palavra, se transformava em equilíbrio", descreve sua companheira Márcia, que é médica.

Genro que sabia conversar frivolidades e conversar o indizível pelo olhar. Foi companheiro do pai de Márcia, que morreu na mesma semana que ele. Ficavam conversando em silêncio "o que só o coração pode fazer".

Ímpar em sua generosidade. Ímpar na concepção matemática. Se divide, sobra. E, sempre sobrava... Sobrava tempo para quem precisasse, palavras para quem ouvisse, ajuda financeira silenciosa, ajuda a quem não se vê. Rotariano em sua maior definição: “Mais Se Beneficia Quem Melhor Serve”. E ele sabia servir sem ser subserviente. Sabia ser amigo, chefe, pai, companheiro, genro e qualquer outra palavra que defina alguma relação.

Ele era. Ele é. É, através das músicas que deixou e, que tinha uma certa vergonha que fossem públicas. Mas, que compartilhava com amigos e família. "Seu violão lhe roubava a timidez social e nos levava aos melhores... Íamos de Roberto Carlos a Elvis Presley, passando por Sinatra e muito rock", diz Márcia.

Evaldo sabia viver e sabia aprender e descobrir. Viveu tudo a seu tempo, no seu tempo. Foi “playboy”, teve veleiro, motos, carros potentes, casa em Itacuruçá (na época em que isto era o máximo). Foi dono de bar, de boate. Gostava da noite. Gostava do “melhor amigo do homem: um cão engarrafado – whisky” – segundo um dos seus ídolos, Frank Sinatra.

Teve e tem amigos importantes, cujos apelidos ("Cabeção", "Chumbica", "Donato" etc) fazem os títulos e cargos irem embora para dar lugar à amizade. Não é à toa que "My Way" (trechos a seguir, em tradução livre) era uma de suas músicas prediletas e uma das músicas do casal Evaldo e Márcia.

"E agora o fim está próximo
Então eu encaro a cortina final
Meu amigo, Eu vou falar claro
Eu irei expor meu caso do qual tenho certeza

Eu vivi uma vida por inteiro
Eu viajei por cada e em todas as estradas
Oh, mais, muito mais que isso

Eu fiz do meu jeito

Arrependimentos, eu tive alguns
Mas então, tão poucos para mencionar
Eu fiz, o que eu tinha que fazer
E eu vi tudo, sem exceção

(...)
E o que é um homem, senão o que ele tem
Se não ele mesmo, então ele não tem nada
Para dizer as coisas que ele sente de verdade

E não as palavras de alguém que se ajoelha
Os registros mostram
Que eu recebi as desgraças

E fiz do meu jeito

Sim, esse era meu jeito"

Evaldo descobriu que poderia gastar um pouco de dinheiro consigo e se deu este direito. Conheceu países, pessoas, lugares. Viveu coisas novas com novos olhares. Se deu. Mas, deu mais para os outros.

Era estiloso. Sabia se vestir. Gostava de relógios (um de seus poucos luxos). A idade não era perceptível. Mas, às vezes, uma dor aqui e outra ali apareciam. A saúde vinha de dentro para fora, da história vivida, das conquistas, da manutenção do que tinha, do querer viver mais.

Evaldo também era um sedutor. "Do tipo que mandava flores no meio do dia sem motivo, comprava uma calça nova para mim, sem nada dizer, porque achava que aquela minha não estava boa para médica que sou. Ele me mudou em muitos sentidos e, de repente, me vi de unhas grandes, cabelos grandes, sem tênis, com sapatos mais altos. Eu tinha que estar à altura de quem sou... Ainda mantenho os cabelos e as unhas", diz ela, citando em seguida as músicas "Eu sei que vou te amar" e "Como é grande o meu amor por você", como a buscar nos grandes poetas do amor, a dimensão de seu sentimento por Evaldo.

E Márcia fala dos planos dos dois para a velhice: "Eu dizia que cuidaria dele velhinho, que ia levá-lo em sua cadeira de rodas para tomar sol todo dia na varanda, geriatra que sou. Talvez meu único consolo seja saber que ainda não era a hora dele estar em uma cadeira de rodas, caso estivesse entre nós. Ele não aguentaria isto. Não agora... Mas, Evaldo, esteja onde estiver, como você dizia para mim, te digo: Não adianta nem tentar me esquecer, durante muito tempo em sua vida eu vou viver, detalhes tão pequenos de nós dois...

São coisas muito grandes pra esquecer...".

A despedida não presencial, torna o luto quase inviável, pois "sempre parece que ele vai ligar no meio do dia para saber de alguém". Evaldo deixou legado. Um legado de verdade: na união dos irmãos, nos comentários em redes sociais que traduzem o quanto ele era amigo dos amigos, funcionários e família.

"Ele deixou legado também no amor que não vai embora, na frase da música feita para mim, que não sai da minha cabeça, 'Encontrei a mulher da minha vida, pessoa mais querida a quem sempre vou amar'”, Márcia diz, e finaliza: "Sou médica. Geriatra. Fiz o possível. O impossível. Mas, ele agora, está com meu pai. No silêncio que só eles entendiam. E, com certeza alegrando e confortando quem está chegando tão antes da hora em um lugar que não era para eles."

Evaldo nasceu em Nova Iguaçu (RJ) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 71 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Rayane Urani, a partir do testemunho enviado por companheira de Evaldo, Márcia Umbelino dos Santos , em 23 de julho de 2020.