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Glória Maria Menezes Penariol

1957 - 2020

Amava ter gente por perto, na sua casa ou onde quer que estivesse. Tinha rodinha nos pés para visitar os outros.

Extrovertida, sua alegria era sair para "bater pernas" sempre que podia. Acostumada com a vida interiorana, em que as pessoas se conhecem e se conversam com facilidade, gostava de ir à casa de um e outro – filhos, amigos, vizinhos – e estava sempre disposta a ajudar quem precisasse. Era daquelas pessoas que não podia ficar longe de gente e, com isso, apreciava também ter a casa cheia, seja para as meras reuniões de família ou para as datas comemorativas.

Seu aniversário, em julho, não passava sem festa. Talvez por isso tenha se aprimorado em fazer e vender salgadinhos, já que a culinária era seu deleite, inclusive para deixar a mesa farta e receber os filhos, noras e netos que queria sempre à sua volta. O filho Cristian comenta, com água na boca, que comida mineira e feijoada eram suas especialidades na cozinha. E tinha paixão por café. Ele ainda relembra que, durante a pandemia, a mãe “ajudou a algumas pessoas com o dinheiro que ganhava da venda dos salgados”.

Vinda de uma família de oito irmãos, Glória não concluiu a escola, trabalhou numa fábrica quando solteira e dedicou-se à maternidade logo depois do casamento com José Lairto. Paparicou o trio de meninos o quanto pôde, cada um na sua época. “Minha mãe dava liberdade para fazer tudo, mas era brava quando precisava, falava firme sempre que queria ser rígida”, conta o caçula. “Nós fomos um pouco custosos, coisas de molecada, preguiçosos com os estudos”, brinca. “Ela era sempre chamada nas reuniões de escola, especialmente por causa dos meus irmãos.” A mãe continuamente incentivou que os meninos estudassem, mas apenas o mais novo chegou até a universidade. Muitas também foram as noites insones de preocupação com os passeios noturnos de Wellington, Wagner e Cristian na adolescência. “Depois ela relaxou um pouco, a cidade de Iturama era pequena e segura".

Por um tempo, Glória trabalhou na área administrativa da empresa do marido, período em que a melhor condição financeira e a vaidade ganharam espaço e ela se realizou comprando vestidos e sapatos, item pelo qual tinha verdadeira mania. “Mexendo nas coisinhas dela, contamos 53 pares, alguns até sem uso”, chega a divertir-se o filho. Quando vieram os netos, viraram a atenção para os pequenos presentes. Karen, a primeira, tornou-se no entanto “a companheiraça” da avó, como diz Cristian. “Faziam tudo juntas, ela foi a filha que minha mãe não teve, eram muito ligadas. Foi a última a vê-la no hospital, o que nos dá algum alívio.” Na companhia da neta, divertia-se ainda em pequenas viagens para visitar os filhos, parentes e amigos.

Na maturidade, Glória dedicou-se com fé e louvor à religião, o que lhe deu mais confiança e uma maior intimidade com o seu Deus.

Cristian pensa na mãe como uma mulher guerreira, humilde, dedicada, que nunca deixou que nada nem ninguém a impedisse de ir além. “Durante muito tempo ela nos inspirou a ser pessoas melhores. Acredito que em cada um de nós existe um pouco dessa mulher, assim como existia nela um pouco de nós. Só penso na minha mãe com alegria. Diariamente, meu ‘bom dia’ e ‘boa noite’ são para ela, com saudade.”

Glória nasceu em Potirendaba (SP) e faleceu em São José do Rio Preto (SP), aos 63 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de Glória, Cristian Menezes Penariol. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Fabiana Colturato Aidar, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 13 de setembro de 2021.