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Guiomar Azevedo de Oliveira

1935 - 2020

De fio em fio, teceu a vida, como um novelo. Empreendedora, mãe, amiga e uma mulher à frente do seu tempo.

Durante os 84 anos de vida, dona Guiomar viveu intensamente cada segundo, contemplando o ar ou até mesmo as plantas que criava dentro do apartamento. Eram muitas. Ela queria estar mais próxima da natureza, por isso amava cultivar seu jardim. Também tinha uma fé inabalável, não perdia uma missa sequer aos domingos. Guigui, apelido carinhoso que recebeu dos mais íntimos, sempre foi uma mulher "à frente do seu tempo". Tudo começou quando ela decidiu assumir o comando da própria história e realizar cada um dos seus objetivos.

Criada no meio da roça, no interior de Campos, dividindo o pão e o teto com 11 irmãos, Guigui sabia ler e escrever, mas não teve estudo. Autodidata, adquiriu a habilidade de costurar e criar modelos para peças de roupa. Na década de 80, já na cidade grande, ela começou a trabalhar como diarista em algumas residências, costurando modelitos a partir de moldes que ela mesma criava.

Guigui só não imaginava que estava costurando a própria história. E, quando o futuro batesse em sua porta, as coisas tomariam outro rumo, como quando a linha encontra a agulha.

No bairro do Éden, no município de São João do Meriti, região metropolitana do Rio de Janeiro, dona Guiomar construiu o Bazar Guigui, onde começou a vender material de costura, um sonho antigo que se concretizava. O negócio funciona há 32 anos e cresceu como o coração da empresária: acolhedor. Sua marca registrada era o prazer em satisfazer os clientes, que ainda veem o bazar como um ponto de referência.

Então o estabelecimento passou a vender de tudo um pouco. Quando lhe perguntavam se ela tinha algo, desde bola de gude até fechadura, a resposta era sempre positiva: "Tenho sim". E anotava em um caderno o que estava em falta. Quem lembra é Margarete Azevedo de Oliveira, uma das filhas de Guigui. Emocionada, ela conta que a mãe era muito querida por todos da família e do bairro.

"Sempre com um sorriso, comparecia a todos os aniversários dos filhos e netos. Adorava as festas da família. Adorava tirar fotos com todos os convidados. Adorava estar sempre arrumada, cheirosa, e sempre usava detalhes como anéis ou cordões. Nunca deixava de pintar os cabelos e fazer as unhas. Adorava elogios e abria logo um sorrisão", diz Margarete.

Foi casada uma única vez, por 58 anos, com Aldemar Augusto de Oliveira, com quem teve quatro filhos, três mulheres e um homem. Filhos esses que ela tratava como eternas crianças, mesmo depois de adultos. Ela também foi avó de 11 netos, a quem sempre teve um amor profundo.

Guigui sempre quis sua independência e ter seu próprio dinheiro. Quando atingiu a terceira idade não reclamava, tentava ver o lado bom da vida, cuidava-se e fazia exercícios. Não tinha nenhuma doença. Ela até aprendeu a mexer no Facebook, rede social em que fazia questão de interagir com os amigos virtuais, sempre deixando um comentário com mensagem positiva.

E é então que Margarete compreende o porquê de a mãe ter sido uma mulher à frente do seu tempo. Dona Guiomar trabalhou como costureira durante boa parte da vida; vendeu linha, botão e agulha; fez o enxoval da filha quando ela estava grávida. E, sobretudo, plantou no coração de cada um dos que tiveram a sorte de conhecê-la uma sementinha que nasce com a força e a delicadeza de quando ela passou por esta terra.

Guiomar nasceu em Campos (RJ) e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Guiomar, Margarete Azevedo de Oliveira. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista João Vitor Ferreira, revisado por Otacílio Nunes e moderado por Rayane Urani em 19 de setembro de 2020.