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Ieda de Araujo Camilo

1964 - 2022

Ninguém podia sair da casa dela sem tomar um mate acompanhado de uma boa conversa.

"Minha mãe era apaixonada em ajudar os outros. A vida dela foi dedicada à criação das filhas, Keite Aparecida, Treicy Kelli, e do filho, Chrystian Gilberto. Começa assim, essa singela homenagem, feita pela filha Treicy Kelli.

Ieda era a filha mais nova dos sete filhos de Manoel Aracy Araujo e Maria Maximiana da Silva. O Senhor Manoel, pai de Ieda, faleceu quando ela tinha aproximadamente oito anos. A mãe de Ieda, foi acometida por um AVC - acidente vascular cerebral. Então com dez anos, a menina precisou trabalhar como empregada doméstica para ajudar a trazer alimento para casa. Depois do falecimento de Seu Manoel, a família mudou-se de Portão, no Rio Grande do Sul para a cidade de Butiá, no mesmo estado. Foram buscar apoio na família extensa para seguirem com a vida.

"Ela era capaz de tirar a roupa que estava vestindo para dar a quem não tinha. Doava os alimentos de casa, roupas, calçados, tudo que ela achava que a gente não estava mais usando e que poderia ajudar outras pessoas.", fala com admiração sobre a mãe, a filha Treicy Kelli.

Ieda sonhava em ver seus filhos com diplomas universitários. Queria tanto que isso acontecesse que voltou a estudar para incentivar a filha Treicy Kelli. "Uma curiosidade sobre isso, é que nos formamos juntas no Ensino Médio. Eu estava meio sem rumo, não estava mais querendo estudar, então ela voltou para o colégio só para me acompanhar. Quando eu estava no 1º ano do segundo grau, ela me alcançou e estudamos os três anos juntas na mesma sala. Tivemos a mesma formatura, com direto a convite juntas. Ela era uma mãe maravilhosa, minha melhor amiga".

Em 2020, Ieda viu a filha Treicy concluir a faculdade e formar-se em Gestão Ambiental. Sua filha Keite Aparecida, cursa Pedagogia e seu filho Chrystian Gilberto, Educação Física. Seu filho e filhas seguem realizando seu sonho.

Outro sonho dela, era voltar a trabalhar como agente comunitária de saúde, profissão que exercia há mais de 20 anos e da qual se orgulhava muito. Precisou se afastar, quando adoeceu, e o câncer a impediu de retornar ao trabalho. Relata a filha que "Mamãe estava enfrentando um câncer muito agressivo no cérebro, mas nunca desistiu da batalha. Muito menos se queixava da doença, pelo contrário. Sempre dizia que alguém, em algum lugar, devia estar passando por algo pior, que não deveríamos nos queixar, por que Deus é quem sabia de tudo".

Ieda era uma pessoa muito fácil de agradar, de riso fácil, meiga. Ela era mais que uma mãe, era a melhor amiga da filha. Ela cozinhava sempre o que os filhos gostavam de comer; e os amores da vida dela eram seus filhos. Era só falarem que iriam visitar, e ela corria para preparar o que eles gostavam de comer. Sempre tinha aquela pizza caseira de sardinha, que era sua especialidade. Era assim que demonstrava seu amor, fazendo coisas que agradavam os filhos e todos ao seu redor.

"Morávamos só nós duas em casa, então a gente costumava jogar muita carta, um jogo chamado Uno. Jogar era uma forma de estimular ela. Antes da pandemia ela adorava fazer caminhadas, passear no shopping e na praia. Minha mãe queria muito viajar de avião, realizamos esse seu sonho, quando eu, minha irmã e ela viajamos para Porto Seguro, na Bahia."

Estava sempre disposta a receber os amigos, adorava uma conversa acompanhada de bom mate de leite. Era muito amada por todos que conviviam com ela, seus sobrinhos de todas as idades estavam sempre em volta dela.

"Sinto falta das nossas risadas de doer a barriga, a gente se olhava e não conseguia parar de rir. A casa ficou em silêncio sem ela, perdeu um pouco do brilho, da alegria. Sempre me esperava para o café, me ligava perto da hora que eu iria voltar para casa, para saber se eu queria café, chá ou Nescau. E quando eu chegava, já estava esperando com tudo pronto, mesmo quando não estava num dia bom em função de sua saúde debilitada.", continua a filha.

Minha mãe estava em tratamento contra o câncer, precisou ser internada, e nesse período acabamos contraindo covid-19. O que, no caso dela foi fatal. Apesar de estar com todas as vacinas em dia, seu organismo não tinha defesa para a combater esse vírus. No último dia de vida de minha mãe, no hospital, ela só pediu que eu cuidasse de meus irmãos, que nos mantivéssemos unidos.

Treicy Kelli termina essa singela homenagem a mãe, falando de como é difícil essa tarefa de seguir com a vida, quando se perde alguém que se ama. "Espero ter conseguido passar aqui, a pessoa incrível que foi minha mãe. Ainda estou tentando descobrir como seguir sem ela".

No entanto, de onde estiver, Ieda está com absoluta certeza esperando que os seus ergam seus olhos para o céu e sigam acreditando que a vida ainda lhes reserva muitas alegrias; porque era assim que essa mulher extraordinária encarava a vida: com força e positividade.

Ieda nasceu em Butiá (RS) e faleceu em Porto Alegre (RS), aos 57 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Ieda, Treicy Kelli Araujo Camilo. Este tributo foi apurado por Rayane Urani, editado por Cristina Marcondes, revisado por Ana Macarini e moderado por Ana Macarini em 25 de julho de 2022.