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Ivini Ribeiro de Castro Rodrigues

1980 - 2020

Na música da vida, dançou sem medo de ser feliz. A dança era um de seus maiores amores e seus passos reluziam.

Dançar com a família era uma verdadeira folia. Todos se divertiam em ritmos dessincronizados, se perdiam em meio às gargalhadas e a sala da casa virava um salão de festas. De todos os cômodos, esse era o seu preferido. Nos dias livres, seu prazer era se deitar no seu aconchegante sofá, que foi escolhido a dedo. E de lá observava seus filhos se exercitando: “Tô dando força daqui do sofá, viu? Vamos lá”.

Desde cedo a vida se mostrou desafiadora para Ivini. Embora houvesse dificuldades, ela escolheu enfrentá-las e lidar de forma honrada em todas as suas batalhas, independentemente do quão difíceis fossem. “Nunca se queixou, apenas fazia dos limões uma limonada.”

Aos 19 anos teve sua primeira filha, a Letícia. Mãe solo, Ivini sempre teve que se levantar cedo para ir para o batente. Morava com a mãe e a irmã e elas viram de perto sua luta diária, passando por muitos problemas financeiros e também emocionais. Já foi de tudo um pouco: trabalhou em loja de roupas, de calçados. Com um passo de cada vez, ela foi crescendo na vida. Por 10 anos se dedicou ao seu último emprego e cultivava amizades por lá. Trabalhar com ela era mais que prazeroso e o tempo até passava mais rápido. Trilhou uma linda carreira e, aos poucos, pôde desfrutar do resultado.

A vida, que parecia ser tão dura, foi florescendo para Ivini. Era só questão de tempo. Comprou sua casa própria, foi presenteada com os gêmeos — Leonardo e Melissa — e até tirou sua habilitação para dirigir, embora o medo superasse a sua vontade: “só vou pilotar se for num carro automático”, ela dizia. Após muito esforço, mais um sonho se tornou realidade: comprou o carro que tanto queria. Ela dirigia para todo lado e buscava motivos para ir ao mercado, só para ter o prazer de desfilar pelas ruas de São Vicente com seu carrão. Cada vez que Ivini conseguia estacionar, era uma festa, e ela registrava com uma foto. Ela mesma parecia incrédula do quão capaz era de vencer qualquer desafio que aparecesse no seu caminho.

E esse legado de enfrentar as dificuldades, ela passou para aqueles que tiveram o privilégio de viver ao seu lado. Apoiava os sonhos de seus filhos e, não importava o tamanho, ela carregava com eles. “Se você quiser ser astronauta, você vai ser. Você tem capacidade pra ser o que você quiser”, ela dizia. Ivini era apoio. Era suporte para tudo e para todos. Um ser humano sem igual. Se ela tivesse só a roupa do corpo e alguém pedisse, ela com certeza daria. Não sabia falar “não” e sempre dava um jeitinho de ajudar as pessoas, mesmo se isso a deixasse cansada. Era o tipo de ser humano que só enxergava o melhor dos outros. Para ela, todo mundo tinha um coração bom.

Se dobrava do avesso para ser uma mãezona para seus filhos, para ordenar a casa, para ser um porto seguro para os amigos. Como ela dava conta? Parecia uma super-heroína dos quadrinhos. Mas não há mágica alguma nas suas conquistas, muito menos ficção. O segredo estava por trás das batalhas e se desvendava na mulher guerreira que Ivini foi durante toda a vida. Cuidava de todos, mas odiava que se preocupassem com ela. Falava que estava bem, mesmo quando tudo estava de cabeça para baixo. Não queria incomodar ninguém.

Fazia graça com tudo e contagiava qualquer ambiente com sua energia positiva, seu lindo sorrisão e o jeito extrovertido. Perto dela os problemas ficavam para depois e as gargalhadas vinham para primeiro plano. Era querida por todos, dava vontade de nunca mais desgrudar. Cheirosa que só ela. Era naturalmente linda e jamais perdia a pose. Amava cuidar da sua aparência. As idas ao salão faziam sua alegria e eram responsáveis por deixá-la mais bonita ainda, já que suas unhas e seu cabelo estavam sempre nos trinques.

Outra paixão da paulista: a culinária, embora fast food fosse sua praia (até quando estava no hospital implorava por um hambúrguer). Mas aprendeu inúmeras receitas novas só para cozinhar para uma de suas filhas, que se tornou vegetariana. Cozinheira de mão cheia, era impossível saber se Ivini gostava mais de cozinhar para a família ou se gostava mais dos elogios que recebia. “Vai falar nada não? Como tá a comida? Tá gostosa? Fala alguma coisa, gente”. Assim eram os almoços, jantares e quaisquer momentos de refeição com Ivini: saborosos e sempre com aquela pitada de amor que só ela sabia dar.

Foi uma mãe, amiga, tia, irmã, filha e esposa ímpar. Por falar em esposa, Ivini deixou um amor. Conheceu Alessandro aos seus 21 anos e compartilhou a vida com ele até o fim. “Tinham uma ligação muito forte”. Ambos foram infectados pelo novo coronavírus e estavam internados. E foi nos últimos momentos da vida de Ivini que essa ligação pôde ser testemunhada pelos profissionais da saúde que estavam por perto.

Naquele dia cinza, algo extraordinário aconteceu. No momento em que os médicos tentaram reanimar Ivini, Alessandro — que estava se recuperando em outra ala e sem saber o que se passava — começou a orar, pedindo que o Espírito Santo fosse até lá e salvasse sua família. Com sua voz grossa e em alto tom, ele clamava e deixava todos ao seu redor confusos. Quando o coração de Ivini parou, às 20h11min, Alessandro suspirou e sussurrou: “Os Anjos estão aqui”. Logo após ele dormiu e, no dia seguinte, não se recordava do episódio. É inegável que a conexão dos dois era, sim, muito forte: uma ligação de almas. O amor os uniu e permaneceu até depois do fim.

No momento seguinte ao seu falecimento, o semblante de Ivini transmitia paz, tranquilidade. “Era seu momento”. Lutou e perseverou. Merecia descansar depois de tanto. Sua jornada no hospital chocou quem presenciou de perto cada pedaço. A bondade e energia de Ivini eram irradiantes, não importavam as circunstâncias.

Todos momentos de risada e de brincadeira vividos com ela faziam ser inimaginável a ideia de que ela partisse assim, de repente. “Ela se foi e deixou um buraco”. Ivini deixou o silêncio na casa aos domingos. Deixou sua marca no seu sofá. Deixou filhos lindos e um marido apaixonado. Mas o que ela deixou mesmo, a todos que tiveram o privilégio de compartilhar a vida ao seu lado, foi uma saudade imensa e incontáveis memórias felizes.

Ivini nasceu em São Paulo (SP) e faleceu em Praia Grande (SP), aos 40 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Ivini, Letícia Ribeiro de Castro Rodrigues. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Roberta Abreu Bezerra, revisado por Gabriela Carneiro e moderado por Rayane Urani em 13 de setembro de 2020.