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Jadiel Reis e Silva Filho

1973 - 2020

Era padrinho de tudo quanto é sobrinho e primo. Passou a vida tentando ajeitar o mundo.

Esta é uma carta aberta de Marcello Terto e Silva para o seu irmão, Jadiel:

Diel conviveu comigo por quase 46 anos completos. Será sempre meu irmão mais velho. Aquele que, de tão zeloso, gostava de limpar detrás das nossas orelhas. Quando criança, era o primeiro a pegar a baladeira para procurar a gente, quando a mamãe achava que tinha perdido no mundo um dos filhos mais novos (eu, para variar!).

Imaginem um menino com seus 10 ou 11 anos, que salvaria o irmão mais novo das garras dos monstros mais nefastos criados na fantasia da nossa mãe. Esse menino era o mesmo que gostava de ter a família sempre por perto.

Nosso pai adoeceu em 1992 e faleceu em 1994; e ele foi procurar cuidar de toda a família. Adoeceu bem no início deste século, precisou fazer hemodiálise e por fim um transplante. Dizia que carregava um pedacinho da nossa mãe dentro dele. Mas não era apenas o rim, ele era todo ela. Como zelava dessa mãe, com uma responsabilidade que eu mesmo não tinha!

Juntou vários cacos, reconstruiu tudo do jeito que pôde e a vida seguiu, com ele sempre tentando ajeitar o mundo. Vivia de saber como estavam os parentes, ligava e visitava mesmo os mais distantes. Era padrinho de tudo quanto é sobrinho e primo. Se não fossem afilhados, não importava, queria todo mundo junto. Nasceu o filho Benício, e não mudou nada.

Não vou falar dos irmãos Neto, Ricardo e Marina, pois teria de escrever um livro cheio de idas e vindas e precisaria pagar direitos autorais. Também não há espaço para minuciar todas as histórias com os amigos.

Perto das três horas da madrugada do dia 20/05/2020, com menos de uma hora de sono, acordo sobressaltado com minha esposa chamando com o meu celular nas mãos: "Meu amor, o Diel!". Naquele momento da madrugada, pedi à minha Aline Terto que nos preparássemos para rezar e debruçamo-nos sobre lições para a perda de entes queridos prematuramente.

Chorei, chorei e chorei, durante toda a manhã, na esperança de que as lágrimas secassem e eu pudesse, de algum modo, abrandar a dor da mamãe com essa lição. Qual nada! Ao que ela atende a videoconferência, derreto-me tal qual um bebezinho a pedir colo: "Eu quero o meu irmão, quero meu irmão!".

Acalmei quando ela, serenamente, me disse: "Não chore, meu Marcellinho... Eu já chorei demais pela manhã e a partir de agora não vou mais chorar. Eu só tenho a agradecer pela pessoa tão boa que Deus pôs na nossa vida. Sou grata pelo tempo que o Diel esteve comigo, cuidando de mim e da nossa família. Ele foi um filho maravilhoso, generoso, bondoso e gostava de ver todo mundo feliz. Deus me deu e Deus me tirou, quem somos nós para questionar? Vamos viver com essas boas lembranças do meu Dielzinho".

A lição estava dada. Continuo a chorar, pois a dor ainda é aguda. Acredito que minha mãe também chorará. Nem sei mesmo se as lágrimas secarão um dia. Todavia, não há dúvida, não há raiva, não há ressentimento. O novo dia mostrou que existe apenas saudade.

Jadiel nasceu em Teresina (PI) e faleceu em Teresina (PI), aos 46 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo irmão de Jadiel, Marcello Terto e Silva . Este tributo foi apurado por Samara Lopes, editado por Nathalia Rogers, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 21 de junho de 2020.