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João Correia Vilella

1935 - 2020

Tecelão cerziu para si aquilo que de mais importante há no mundo: humildade e amor.

O dia mal clareava, e o "Joãozinho" já estava de pé. Ainda que fosse um domingo preguiçoso... Era um hábito dele, de muitos anos... Acordar sempre cedo para aproveitar mais o dia, a família, o trabalho e sua atividade favorita: a leitura.

Era daqueles que sempre estava com um livro por perto e que, estava sempre lendo alguma coisa, mesmo que fosse uma revista ou um jornal. Era como se a leitura o transportasse para um outro lugar e o enchesse de conhecimento e energia para as jornadas da vida.

Por muitos anos, foi tecelão. Habilidoso no ofício, sabia como ninguém preparar os fios, engomar e tecer a trama dos tecidos, com muita paciência e agilidade. Parecia até aquela espécie de passarinho que dividia com ele o ofício, por também tecer seus ninhos para os filhotes, mais ou menos como João fez com os dois filhos, Ademir e Rosana. Tinha nome e ofício de passarinho. Vai ver por isso, era sempre tão amável.

Com a mesma habilidade que tecia, Joãozinho cerziu para si aquilo que de mais bonito alguém pode buscar: a humildade de coração. Justamente por isso, era conhecido pela bondade e pela dignidade com que tratava todos.

Sempre amável, o tecelão ajudou a coser firmes e fortes relações com amigos e com a família; sobretudo com a esposa, Enedina Martins, com quem dividiu a vida.

Fazia questão de organizar e de estar presente em todos os encontros familiares, preenchendo os eventos com seu sorriso leve, típico das pessoas de bom coração. O último deles foi o aniversário de 60 anos do filho Ademir — o derradeiro encontro da família. Ele abraçou e beijou os filhos com todo amor que lhe era característico.

Alguns dias depois, Joãozinho, duas vezes passarinho, voou para longe, para espalhar toda a sua bondade pelos seus novos caminhos.

João nasceu em Jaboticabal (SP) e faleceu em São Paulo (SP), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de João, Ademir. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Sarah Fernandes, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 13 de junho de 2020.