Sobre o Inumeráveis

José Bráulio Sousa Ayres

1954 - 2020

Como um enviado de Deus, colocou-se à disposição dos seus semelhantes. Deixa uma multidão de órfãos.

Foi ordenado sacerdote em 06 de dezembro de 1981.

No momento, exercia a função de pároco da Paróquia Santíssima Trindade, na Cidade Olímpica, em São Luís (MA).

“De certa maneira, fomos pegos de surpresa, uma vez que as notícias recentes sobre a evolução da doença eram bastante positivas”, comenta o arcebispo Dom José Belisário da Silva.

A Arquidiocese de São Luís do Maranhão deve muito ao padre Bráulio.

“Se pudermos sublinhar uma das suas importantes atuações em favor dela, chamaríamos a atenção para a importância de padre Bráulio na retomada da formação de novos presbíteros não só para a Arquidiocese de São Luís, mas para todo o Maranhão”.

Trecho extraído de um comunicado, assinado por Dom José Belisário da Silva e por Dom Esmeraldo Barreto de Farias.

-

Sacerdote católico negro, que transbordava esperança e iluminava muitas vidas.

Um padre muito humano, cheio de alegria e solidariedade. Tinha uma riquíssima história na igreja Católica do Maranhão.

Suas palavras motivadoras e tão marcantes ergueram grandes paróquias por onde passou, e fez brotar uma fé fortificada nos corações das pessoas que tiveram o prazer de ter um momento de conversa com ele.

"Obrigado por tudo Padre Bráulio, nosso pretinho, como ficou conhecido pelos jovens de sua igreja.", finaliza seu amigo e paroquiano, William Nogueira.

-

Tinha o dom de unir pessoas, sonhos, projetos e até continentes.

José Bráulio ou Padre Bráulio nasceu no dia 10 de abril de 1954, no povoado quilombola Santo Antônio. Filho de Faustino Juvito Ayres e Raimunda da Conceição Sousa Ayres, Padre Bráulio foi o oitavo filho de 11 irmãos. Desde a adolescência, sonhava em ser padre.

Aos 12 anos foi estudar na cidade de Penalva e, em 1970, migrou com seus irmãos para São Luís. Ingressou no Seminário Santo Antônio em 1976, onde cursou filosofia e teologia (1876-1981). Foi o primeiro padre negro ordenado na diocese de São Luís e o primeiro padre negro de todo Maranhão.

Em seu sacerdócio esteve à frente de várias paróquias: de 1981 a 1987 foi pároco da Paróquia Divino Espírito Santo, na Liberdade, Floresta e Fé em Deus, um quilombo urbano. De 1988 a 1993 foi vice-reitor do Seminário Interdiocesano de Santo Antônio (SISA). Foi pároco e fundador do atual Santuário Nossa Senhora de Nazaré, em Cohatrac, durante 1991 até 1992.

De 1997 a 1998, na área rural da arquidiocese, junto das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), foi articulador do 9º Encontro Intereclesial Nacional das Comunidades de Base do Brasil, que aconteceu em São Luís. De 1998 até 27 de dezembro de 2009, assumiu o Santuário e Paróquia de São José de Ribamar, com forte trabalho pastoral, planejamento e participação de leigos, através da Associação dos Amigos e Amigas de São José de Ribamar.

Assumiu a paróquia de São José do Bonfim de 2013 até 2017, permanecendo junto aos egressos do antigo “leprosário”, fundado em 1937. De 2018 a 2020, assumiu as atividades da Paróquia Santíssima Trindade, na Cidade Olímpica, uma das maiores ocupações urbanas da América Latina, com quase 100 mil habitantes, onde ficou até sua internação no Hospital São Domingos, na capital São Luís.

Foi coordenador da Pastoral Vocacional Diocesana e articulador da Pastoral Vocacional Estadual: articulou inúmeros CCV (Encontro de Conscientização Vocacional), ROL (Retiro de Oração e Libertação), bem como ROV (Retiro de Opção de Vida). Foi coordenador da Pastoral dos Negros da Regional Nordeste V e Nacional, da Pastoral Bíblica do Maranhão e cofundador do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) no Maranhão. Foi membro da coordenação de Pastoral Arquidiocesana, do Colégio dos Consultores e do Conselho Presbiteral. Também foi Vigário Episcopal para área rural, época que fortaleceu a criação de dezenas de paróquias na arquidiocese.

Um dos momentos mais importantes de sua vida foi a visita do então Papa João Paulo II no Maranhão, hoje São João Paulo II. Padre Bráulio, neto de trabalhadores escravizados, foi o primeiro da família a ter o diploma de ensino superior. Em 1993 foi enviado à Roma, tendo concluído em 1994 o mestrado em antropologia teológica na Pontifícia Faculdade Teológica Teresianum. Em 1997, concluiu com louvor o doutorado em Antropologia Teológica, na mesma universidade, com o título “Análise Teológica dos Santos Vodus do Maranhão”.

Em 2010, foi para a Itália, onde recebeu o ministério do Papa Bento XVI para ser "Fidei Donum", missionário do mundo, sendo o primeiro padre do Brasil a receber esse título. Em 2012, fez pós-doutorado em Teologia, estudando a teologia de matriz africana no Maranhão, cuja temática foi “repensar as religiões de matrizes africanas no Maranhão a partir do Documento de Aparecida”, tornando-se assim, o primeiro padre negro com PhD em Antropologia Teológica do Brasil. Dominava as línguas francesa, espanhola e italiana. Foi professor de Antropologia do Instituto de Ensino Superior do Maranhão (IESMA).

Padre Bráulio foi responsável pela implantação da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (APAC) no Maranhão e pela construção de várias igrejas e obras por toda Arquidiocese de São Luís do Maranhão, onde se destaca a construção do Santuário Nossa Senhora de Nazaré, no Cohatrac.

Com ajuda de leigos e do governo do estado, fizera fortes reformas no santuário de São José de Ribamar nos anos de 2000 e 2001, favorecendo a acolhida de inúmeros romeiros vindos de todas as partes do Brasil, e elevando assim, as festividades religiosas ao santo como uma das mais importantes do nordeste do Brasil.

Era presidente da Associação Santo Antônio dos Pretos, que desenvolve ações sociais e de cuidados com a saúde em Comunidades Quilombolas, em Penalva, e ainda presidente do Conselho Curador da Fundação Justiça e Paz se Abraçarão, na Cidade Olímpica. "O povo de Deus precisa sair dos templos e ir às ruas evangelizar e lutar contra a violência e as drogas", esta é uma das citações que o padre deixou.

"Padre Bráulio, meu tio querido. Simplesmente, tio Bráulio, meu pai, amigo, conselheiro, profeta do povo negro e dos mais vulneráveis. Avô da minha filha Maria Estrela, de 10 anos. Gostava de estar com o povo, amava a cultura maranhense, sempre que podia, entrava numa roda de tambor de criola, dança do lelê, bumba-meu-boi. Com sorriso largo, voz mansa e um coração enorme acolhia todos, sem distinção. É... nosso negão tem esse dom de unir pessoas, sonhos, projetos e até continentes", diz a sobrinha Elivania.

José nasceu em Penalva (MA) e faleceu em São Luís (MA), aos 66 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela jornalista, por amigos e pela sobrinha Elivania Estrela Aires de José. Este tributo foi apurado por Carla Cruz, editado por Raiane Cardoso, revisado por Joselma Coelho e Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 21 de maio de 2020.