Sobre o Inumeráveis

José Eufrazio Cardoso

1947 - 2020

Pai orgulhoso, comemorava cada conquista e gritava aos quatros cantos da cidade: "Foi minha filha que fez!"

Na carta abaixo, Euricelia relembra e homenageia seu pai, José Eufrazio:

"Meu pai.

Popularmente conhecido como Seu Zequinha...

Sempre soube que a nossa ligação era de alma. Meu pai, sei que estás nos braços do pai celestial, também sei que essa dor não será eterna, a única coisa eterna será a saudade. Também sei que terei que aprender a viver sem sua presença física e me contentar com as infinitas lembranças.

Meu pai foi meu melhor amigo, parceiro em todos os momentos bons e difíceis da minha vida. Foi o maior incentivador dos meus sonhos. E quase sempre sonhava antes de mim!

Desconheço um ser humano com um coração tão cheio de bondade quanto o dele. Nunca vi alguém ter tanta satisfação em servir o próximo como meu pai. Mesmo internado, quando lhe era servida água de coco ele pedia para servir os outros pacientes. Ele foi e sempre será minha maior referencia de bondade, generosidade e humildade.

Ele sempre foi quem mais vibrou com todos os projetos que realizei na minha vida pública. Comemorava com intensidade da alma e muito brilho nos olhos e não hesitava em gritar bem alto aos quatros cantos da cidade: 'Foi minha filha que fez!'

Quando o assunto era política, ninguém sonhou com tudo que conquistei, tão alto e tão lindo, como ele. Meu Deus, como ele tinha orgulho dessa filha, pai mais babão não existia!

Meu pai era autêntico, espontâneo, falava o que vinha na cabeça. Quem o conhecia sabe do que estou falando. Ele era impaciente, às vezes exagerado, às vezes bravo. Não levava desaforos para casa, principalmente quando o assunto era a meu respeito. Me defendia feito leão, depois comentava comigo e perguntava: 'Mas, minha filha, você não acha que estou certo?' E, claro que pelo tom de sua voz, eu não tinha outra alternativa a não ser concordar naquele momento.

Horas depois, vinha outra ligação narrando a mesma história, só que desta vez assumindo que tinha exagerado: 'Minha filha, acho que exagerei. Gosto de fulano, mas ele não agiu corretamente contigo'.

Meu pai era assim. Muitas vezes agia pela emoção mas, no fundo no fundo, nunca gostou de magoar ninguém. Quando discutia com alguém que gostava, ele não sossegava enquanto não estivesse tudo bem com a pessoa. Depois de tudo esclarecido e de restabelecida a amizade, ele se sentia presenteado.

Meu pai não guardava mágoa de ninguém. Meu pai sabia perdoar, meu pai amava viver, meu pai viveu com tanta intensidade em tudo que ele acreditava.

Meu pai tinha esperança em um mundo melhor, fé em Deus e amor pelas pessoas e pela vida. Meu pai, tinha um vocabulário rico de palavras otimistas, de esperança e sempre acompanhadas de uma boa dose de fé. Medo e pessimismo eram palavras desconhecidas no seu vocabulário.

Quem teve o privilégio de conviver com ele sabe que jamais sairia do mesmo jeito desta relação, porque ele sempre tinha algo para acrescentar, com suas inúmeras histórias.

Minha gratidão aos amigos que estavam firmemente orando e rezando pela restauração da saúde de meu pai, a todos os médicos, enfermeiros, técnicos, e demais profissionais da saúde que se dedicaram incansavelmente, mesmo com todas suas limitações, ausência de suporte básico e essenciais para desempenharem melhor suas atividades, mas fizeram o que estava ao seu alcance.

Creio que meu paizinho cumpriu sua missão aqui. Foi guerreiro até seu último suspiro. E ainda me presenteou, aguardando a minha chegada para que passássemos sua última noite juntos, e diga-se de passagem, ele se foi todo perfumado, de tanto óleo ungido que eu passava nas suas pernas, braços, mãos e intensificava com massagens em seus pés! E, enquanto eu massageava, deixava tocando sua música preferida: vai dar tudo certo!

Oh, paizinho quanta saudade vai deixar!"

José nasceu em Vitorino Freire (MA) e faleceu em Laranjal do Jari (AP), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de José, Euricelia Machado Cardoso. Este tributo foi apurado por Jonathan Querubina, editado por Jesiel Eliezer Zerbo , revisado por Gabriela Carneiro e moderado por Rayane Urani em 6 de agosto de 2020.