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José Leonardo Francez

1947 - 2020

"Quando eu morrer, quero ser enterrado no cemitério Campo Grande, para dar tchau aos ônibus que passarem.”

E, como Tiradentes, morreu um revolucionário em abril.

José Leonardo Francez era pernambucano, mas vivia em meio ao caos de Sampa.

Adorava ouvir o soar da viola e colocar um baião para se recordar da terra natal.

Engraçado e jovial, saía sempre na semana, para se entreter no curso de informática. Quando ficou sabendo da pandemia, não se abalou - era melhor que tudo isso, seu amor à vida prevalecia a qualquer doença.

Teimoso. Foi internado na semana da Páscoa, a família rezava em quaresma. Dizia estar bem e, em suas incontáveis frases sobre suas paixões, amava dizer que "a humanidade perderia um homem tão bom", fazia pena um homem como ele ser levado àquela dimensão que muitos querem conhecer e que, através de atalhos, tentamos contemplar em nosso imaginário.

Mas o onírico e o real eram iguais para José. Aos 73 anos, era responsável e amava a vida. Deixou esse legado para sua esposa e filhos, já que sempre soube que amar e mudar as coisas lhe interessavam mais.

José Leonardo Francez era bom demais para essa terra. Um peregrino que, com certo apego que qualquer andarilho tem, ouviu os sinais cantados por seu conterrâneo e disse para família: “quando eu morrer, quero ser enterrado no cemitério Campo Grande, para dar tchau aos ônibus que passarem”. E assim o fez, voltou à terra natal em um Dia da Inconfidência e, dando “tchauzinho” aos ônibus, tornou-se mártir de uma revolução tão bonita chamada viver.

José nasceu em Pernambuco e faleceu em São Paulo, aos 73 anos, vítima do novo coronavírus.

Jornalista desta história Malu Marinho, em entrevista feita com filha Josi Francez, em 1 de maio de 2020.