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José Luiz Seixas Aguiar

1958 - 2020

Evitava a solidão. Para ele, felicidade era estar rodeado de gente que amava.

Com justiça e seriedade, conseguiu ser o apoio para família e amigos. Não dispensava uma boa comida e os domingos reunidos com os seus, regados à música, eram perfeitos. Rotina tão preservada que passou para gerações seguintes. Com os amigos, vizinhos e familiares, se reunia todos os dias para jogar dominó e uma corrida no final da tarde, formavam suas escolhas para o tempo livre.

Como religioso, Seu Luiz gostava de escutar músicas do Padre Zezinho e também do Roberto Carlos. Fazia suas orações e participava da missa, como descreve, saudosamente, sua filha: “quando nossa casa era de madeira e eu ainda era criança, eu sabia quando ele tinha acordado porque eu ouvia os sussurros das orações dele pela manhã”.

De muitos amigos, apreciava uma boa companhia e evitava a solidão. Sua seriedade buscava equilíbrio na alegria para dar vida às festas da família, “não havia tristeza quando ele chegava” relata Heloiza. Muito ativo, sempre procurava uma atividade para preencher seu tempo e todos ao seu redor sabiam que podiam contar com sua disponibilidade.

Honesto e com caráter exemplar, foi construindo uma postura de respeito e sua vontade era aceita por todos. Gostava de deixar exemplos e após concluir o ensino fundamental, já na idade adulta, ao mesmo tempo em que uma das filhas cursava a faculdade, emoldurou seu certificado para que tornasse visível sua conquista e servisse de incentivo ao estudo. Principalmente por uma infância difícil que tivera, Seu Luiz reforçava as condições para que os filhos estudassem, desenvolvessem uma profissão e alcançassem independência.

Demonstrava seu amor aos filhos em forma de cuidado e segurança, tentando participar ativamente dos acontecimentos e decisões tomadas e com isso, foi representando um porto seguro na vida deles. Ser um bom pai era valoroso, ver seus filhos crescendo e trilhando suas próprias vidas era uma das maiores alegrias. Uma euforia contagiante para recepcioná-los, acompanhada de gentilezas e carinho, mesmo com o jeito sério e calado do pai, Heloiza conseguia arrancar abraços e conversas, que foram ficando mais comuns na vida adulta dela e de seus irmãos. São oito filhos com Dona Maria Jurema, sendo um deles presente somente nas lembranças do pai.

Sua filha descreve um momento que guarda com carinho sobre seu pai. Certo dia, uma prima, ainda bebê, estava na sua casa, sob os cuidados de Dona Maria Jurema. Heloiza e sua irmã são muito parecidas com ela. Seu Luiz estava dormindo e quando acordou se deparou com a bebê brincando no chão e quando a viu, levou um grande susto e disparou: " Olha é a Helô, é a Mara!", começou a coçar a cabeça, respondendo à sua esposa que a criança parecia com suas filhas. "Até hoje todos riem dessa história por causa do susto que ele levou, por um instante ele foi ao passado”. Descreve Heloiza.

Dos filhos vieram os netos, que conseguiam extrair um amor diferente de Seu Luiz, pois facilmente demonstrava seu carinho nos apelidos, como o Curumin e o Zezinho, ou nos presentes, brinquedos, brincadeiras e chocolates. Recebeu até homenagem, entre filhos e netos, a maioria tem Luiz no nome, “a família dos Luízes”, relata sua filha.

Em se falando de amor, Seu Luiz, casado com Dona Maria Jurema, decidiram ficar juntos ainda muito novos, puderam compartilhar da vida por quarenta anos e construíram uma relação de respeito e companheirismo. Ele não costumava pedir, mas aceitava os gestos de cuidados oferecidos pela amada, como sua comida preferida. É tanto que não gostava de comer em restaurantes porque não sabia se expressar em lugares novos sobre o que gostava.

Para formar sua família, sempre se dedicou ao trabalho com o objetivo de que nada faltasse à sua companheira e filhos. Chegou a trabalhar como estivador no cais do porto, taxista, camelô, fazendo frete com seu próprio veículo e fiscal da prefeitura de Manaus. Fruto de seu trabalho e de sua esposa, adquiriu um terreno e construíram a casa própria.

Entre os seus, não há como não ouvir a música Utopia, do Padre Zezinho, e não se lembrar do jeito protetor, generoso, sorridente e sereno de Seu Luiz. Com sua simplicidade, o cuidado em fazer o que mais gostava e proporcionar o melhor para sua família, é inspiração para sua filha e certamente para os que compartilharam a vida com ele.

José nasceu em Santarém (PA) e faleceu em Manaus (AM), aos 62 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de José, Heloiza Jussara Vasconcelos Aguiar. Este tributo foi apurado por Giovana da Silva Menas Mühl, editado por Hortência Maia, revisado por Bettina Florenzano e moderado por Rayane Urani em 5 de setembro de 2021.