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José Menache Neistein

1934 - 2020

Foi uma dessas pessoas cuja passagem pelo mundo deixa um legado inestimável e uma enorme saudade.

Sua trajetória de vida se entrelaçou com o desenvolvimento e difusão das artes brasileiras no exterior por toda a segunda metade do século XX. Nascido em 1934, filho de imigrantes judeus tradicionais, passou sua infância e juventude no bairro do Bom Retiro, lugar que resguardou suas raízes por toda a vida e onde morou nos seus últimos anos, em um apartamento imerso em livros e uma coleção de arte com peças das mais diversas origens, épocas e feituras.

Em sua juventude, José esteve presente na primeira Bienal de São Paulo (1951), que ampliou seu horizonte para as artes, rompendo um isolamento ainda provinciano. Enquanto estudava filosofia na USP, foi tido como uma brilhante promessa da crítica teatral paulistana, impulsionado por Décio de Almeida Prado e Maria José de Carvalho. Com Anatol Rosenfeld, estudou poesia e filosofia alemã e com Jacó Guinsburg se fascinou pela riqueza da literatura iídiche.

Após graduar-se em 1956, recebeu uma bolsa de estudos do governo austríaco para realizar um doutorado em Estética, na Universidade de Viena. Nesses anos em que residiu na Europa, tomou contato com as fontes culturais do ocidente e com as vanguardas europeias do pós-guerra, dando continuidade a sua militância nas críticas das diversas artes.

Seu distanciamento do Brasil, o permitiu revisitar as contingências das produções artísticas e da etnografia brasileira sob uma perspectiva universal. Ainda durante seu doutorado em Viena, iniciou carreira no Itamaraty como difusor da cultura brasileira em um contexto internacional, ministrando conferências por toda a Europa e Américas.

Em 1967, tornou-se adido cultural em Assunção no Paraguai e, em 1970, foi transferido para os Estados Unidos, onde fixou residência permanente. De 1970 a 2007 dirigiu o Brazilian-American Cultural Institute (BACI) em Washington DC, onde eram realizadas, em média, oito mostras anuais de arte, cursos de Português, concertos de música, seminários relacionados à cultura e à literatura brasileira. Durante as férias de julho, quando regressava ao Brasil, José mantinha contato direto com a cena local, visitando mostras e ateliers para compor sua programação anual. Dentre os artistas que Neistein levou ao BACI para expor, estão: Yolanda Mohalyi, Tomie Ohtake, Manabu Mabe, Axl Leskoschek, Martins de Porangaba, Mira Schendel, Nelson e Giselda Leirner, Ismael Nery, Emanoel Araujo, Marcelo Grassmann, Evandro Carlos Jardim, Maria Bonomi, Lívio Abramo, Renina Katz entre outros. Os textos curatoriais dessas mostras foram reunidos e publicados em 1981, no livro "Feitura das Artes" pela Editora Perspectiva.

Em paralelo, José Neistein desenvolveu o trabalho de editor na Divisão Hispânica da Biblioteca do Congresso em Washington, que detêm o mais significativo acervo de livros e textos latino-americanos. De 1970 a 2019 redigiu anotações sobre a bibliografia inédita a respeito da arte e arquitetura brasileira. Dessa elaboração primorosa e lapidada, foram publicadas pela editora Kosmos, mil e setecentas resenhas relativas à produção dos anos de 1970 até 1997 no livro: "A Arte no Brasil dos Primórdios ao Século Vinte", com prefácio de Aracy Amaral. Os mais de quinhentos apontamentos realizados nesses últimos vinte anos, que ainda não foram publicados no Brasil, consistem em um documento relevante para os estudos da historiografia da arte nacional, que serão publicados postumamente.

Quem conviveu com José, sabe da relação profunda que ele estabeleceu com suas referências plásticas, sonoras, dramáticas e literárias, transpostas para sua própria experiência de vida. Sua expressão oral e escrita traduziu em palavras objetivas toda uma dimensão subjetiva interior, que conjugava a perspicácia de sua atenção aos detalhes com a sensibilidade de uma apreciação autêntica do mundo ao seu redor, revelando sua verdadeira arte de matizar conversas cotidianas com texturas sutis de sabedoria.

Um ser iluminado foi José Neistein, de abençoada memória, faleceu no sábado dia quatro de julho de 2020, deixando um vazio tão grande aos seus familiares e amigos quanto a extensão de seu legado para as artes e cultura brasileiras.

Esta homenagem, encaminhada pelo sobrinho Rubens Neistein, foi extraída da nota em memória de José Neistein, escrita por Gabriel Neistein, em julho de 2020.

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José Neistein, mestre brasileiro

O nome dele era José Menache Neistein e para nós, os que convivemos com ele e sabíamos dele, de sua criatividade, cultura, capacidade executiva, e de sua transbordante afetividade, esse nome, José Menache Neistein, permanecerá sempre conosco como um tesouro ao qual tivemos acesso e nos ajudou na jornada.

A sua ausência nos lembrará da nossa perda. Neistein era um homem brilhante e que fez muito pelo Brasil e pela nossa arte. Ele a divulgou, expôs e explicou nos Estados Unidos durante muitos anos, de maneira rara, erudita e sensível. Penso que é fundamental que falemos em arte de maneira sensível. Não basta saber muito e burocraticamente, é necessário perceber a cultura com os olhos de um poeta. É o que José fazia. E não é o convívio com os que sabem ler a cultura com o coração e o olhar do poeta o que nos marca?

Em tudo o que José Neistein tocou, e ele tocou em muita coisa, ficou enobrecido. Eu admirava essa capacidade do José em amar exaltadamente e conservar a consciência alerta. Nós tínhamos uma relação cordialíssima. Sempre me agradou essa sensibilidade aguçada que, nele, convivia com a disponibilidade para viver o presente. Uma espécie de Apolo hedonista, por inacreditável que seja.

Na medida do possível eu acompanhava o seu trabalho e tinha, como subsidio, também o relato dos artistas que ele expunha, apresentava, documentava. E o José Neistein, mesmo à distância, na sua morada americana, se mantinha a par do meu trabalho. Num livro de rara qualidade cujo tema era a bibliografia da arte brasileira, ele me concedeu um espaço respeitoso.

Trocávamos alguma correspondência, era sempre pessoal, mas o motivo inicial era o nosso trabalho. Tanto ele, quanto eu, tínhamos o fazer como parte imprescindível da nossa vida. Quando ele fez um depoimento sobre a sua vida de filho de imigrante para um livro da Professora Maria Luiza Tucci Carneiro o meu encantamento foi extremo. Neistein modestamente contou a sua juventude, os valores éticos de seu pai e que o marcaram para sempre, o seu esforço em busca do conhecimento e o conhecimento como a escolha que o levaria para a liberdade existencial e para a ação ampliada de seu desejo humanista. Creio que foi esse texto, em sua grandeza humana e no seu despojamento o que selou, em nós, a fraternidade sem ressalvas que persistiu até o fim. A minha empatia com este depoimento foi extrema.

José Menache Neistein, mestre cultural, avançado divulgador da nossa arte, figura humana encantadora, sensível cultor da existência, nos deixou e a saudade dele já se instalou em muitos de nós.

O tributo acima foi extraído do Jornal Online Arte & Crítica, da ABCA (n° 54 – Ano XVIII – junho de 2020), com autorização do Sr. Jacob Klintowitz.

José nasceu em São Paulo (SP) e faleceu em São Paulo (SP), aos 85 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo sobrinho e pelo amigo de José, Rubens Neistein e Jacob Klintowitz. Este tributo foi apurado por Lígia Franzin, editado por Lígia Franzin, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 28 de julho de 2020.