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José Ribamar Pontes

1941 - 2020

Zecão da Praça 14, símbolo de resistência negra, uma vida que merece virar samba.

Um grande pai, padrasto, esposo, avô e amigo.

Era conhecido como o "Zecão da 14" por ter nascido e crescido no bairro Praça 14 de Janeiro, onde se concentraram os primeiros negros na cidade de Manaus.

José foi criado em um bairro de resistência. Tinha orgulho de sua negritude. Teimou com um mundo que o oprimia. Lutou pelos seus e por si.

Tricolor fanático do Fluminense, personificava a letra do hino de seu time: foi paz, esperança e vigor. No Rio de Janeiro, Portela. Em Manaus, Verde e Rosa, e apaixonado pelo samba de sua escola, também da Praça 14, a Vitória-Régia.

Trabalhou como taxista, motorista da antiga Companhia de Saneamento do Amazonas e entregador de botijão de gás. Quando criança, ajudava sua mãe, lavadeira, na entrega das roupas. Teve uma infância árdua, o que o fez travar muitas batalhas, mesmo tão jovem. Porém, isso não o impediu de enxergar a vida com ternura e alegria.

Frequentador assíduo das igrejas e devoto das Nossas Senhoras de Fátima, Auxiliadora e São José. Abraçava a fé e o poder que ela ecoa. Sabia que Deus o ajudaria a prover todas as coisas, incluindo o pão de cada dia, que ele tanto amava. José chegou a ser apelidado de Zeca “pão rasgado”, exatamente pelo fato de comer muito pão.

No samba da Mangueira, canta-se “atrás da Verde e Rosa só não vai quem já morreu”. José Ribamar, por ser teimoso e resistência, desafiou duplamente o enredo. Partiu e subiu aos céus, junto da Verde e Rosa. Mas de sua verde e rosa Vitória-Régia.

José nasceu Manaus (AM) e faleceu Manaus (AM), aos 78 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Vitória Freire, a partir do testemunho enviado por genro Benildo e família Lira, em 20 de maio de 2020.