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Josefa Severo da Silva

1959 - 2021

A porta da casa estava sempre aberta. Na mesa, um bolo quentinho era rotina.

Zefinha da creche, ou simplesmente tia, como era chamada por tantos que a conheciam, mesmo que tivessem a mesma idade que ela, era filha de José Alves da Silva, também conhecido como Duca Bezerra, e Sebastiana Severo da Silva, muitas vezes chamada de Didi. Primogênita de dezesseis filhos, Zefinha sempre cuidou daqueles ao seu redor: começando pelos irmãos mais novos quando os pais iam trabalhar, depois dos próprios filhos, então dos pais quando idosos, do sobrinho que criou como filho e de qualquer pessoa que precisasse dela. Funcionária pública por anos na prefeitura de Arapiraca, também trabalhou em creche e escola até se aposentar. Como disse seu sobrinho Natan, "ela viveu para ajudar, viveu para os outros."

Essa vontade de ajudar era enlaçada com um carinho maternal: Josefa chamava a todos de "meu filho", chegava em todos os lugares brincando, abraçando, beijando e extremamente alegre. Embora não gostasse de parar em casa, uma coisa era certa: se estivesse lá, a porta estaria aberta.

Zefinha conseguia arranjar amizade em qualquer lugar, até no ônibus. Em meio a tanta gente estressada e com pressa, ela queria conversar com todos, e era muito conhecida por sua personalidade radiante e gentil. Gostava de assistir televisão com a neta, deixar o almoço preparado às nove da manhã, e de viajar. Sonhava em conhecer a Basílica de Aparecida do Norte e deixar todos os filhos com uma casa própria.

Amava fazer bolo para seus parentes e constantemente perguntava aos seus familiares o que eles tinham achado da comida. Quando respondiam que estava ótima, Zefinha contava que algo tinha faltado, ou que tinha substituído algum ingrediente. Ela sempre estava inventando novas receitas deliciosas.

Ingredientes podiam até faltar no bolo, mas nunca faltava um lugar na mesa para quem quer que chegasse. Zefinha era o tipo de pessoa que transformava uma casa em um lar.

Se bondade fosse uma pessoa, seria Josefa.

Josefa nasceu em Arapiraca (AL) e faleceu em Arapiraca (AL), aos 61 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido Sobrinho de Josefa, Natan Alves. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Layla de Cássia Alves Santana, revisado por Bettina Florenzano e moderado por Rayane Urani em 10 de janeiro de 2022.