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Julia Silva dos Santos

1949 - 2020

Foi um anjo que Deus colocou na terra para acalentar o coração de muitas pessoas.

Devota de Nossa Senhora Aparecida, confiava toda sua fé em Deus e acreditava piedosamente nas graças da padroeira do Brasil. Gostava de conversar, assistir as suas novelas e sair para olhar o movimento das ruas.

Julia era batalhadora. Daquelas mulheres que já nascem de punhos cerrados para lutar contra as dificuldades da vida.

Teve uma infância sofrida, como normalmente ocorre com as crianças que precisam fazer aquele acordo injusto, já nos primeiros anos de vida: trocar as brincadeiras pelo trabalho árduo.

Quando adulta, tornou-se enfermeira do Hospital Vila Maria, em São Paulo e, mais tarde, prestou serviços domésticos, em uma mesma residência, ao longo de 18 anos.

Foi casada durante 52 anos com José Miguel e deu tudo de si na criação de seus seis filhos: Rosângela, Rogério (in memoriam), Reinaldo, Roselaine, Roberto e Rodrigo.

Suportou a mais dolorosa aflição de uma mãe: perdeu seu filho Rogério.

Contudo, mesmo em meio às adversidades, a mulher encontrava maneiras de aflorar, dentro de si, uma perseverança que impressionava até os mais pessimistas.

A alegria voltou a protagonizar sua vida quando o bisneto nasceu. Foi o primeiro de sete, que ainda viriam para jogar luz nos dias de Julia. Dez netos, sete bisnetos e incontáveis motivos para sorrir.

Hoje, Rosângela mantém íntegra a força que herdou de sua mãe. Enfrenta a dor de se perder quem lhe deu a vida e, com uma coragem que nem mesmo ela compreende, encontra potência para transformar Julia em palavras de amor. “Ela foi uma mãe amorosa, uma esposa batalhadora, uma vizinha prestativa, uma avó maravilhosa para os netos. Para os bisnetos então, nem se fala! O que ela tinha não era dela. Se ela tivesse só um real no bolso, era capaz de ficar sem esse dinheiro pra te dar. Ajudava todo mundo”.

Assim como seu filho Rogério, Julia partiu, de repente. A família não conseguiu se despedir e, talvez, por esse motivo, a dor demore a encontrar espaço na conformidade. “A última recordação que tenho, foi quando ela ligou da UTI, com a ajuda de uma enfermeira, que fez uma chamada de vídeo. Conversei com ela, vi que ela estava bem... Mas acho que, bem apenas aos nossos olhos, porque infelizmente ela se foi. A gente não teve como se despedir. Não pude dar o último beijo na minha mãe”, lamenta Rosângela, enquanto a saudade transborda em seus olhos.

Agora, por fim, a família descobre como os dias são difíceis sem a Julia. Mas, assim como ela, todos hão de encontrar a força para sobreviver, enquanto a mãe, avó e bisavó, lá de cima, ilumina todos com o seu amor.

“Amo todos, sem exceção. Amo todo mundo”, foi o que ela disse em seu último áudio gravado, em que, a melodia de sua voz, sai do celular e ecoa no coração de toda a família.

Julia nasceu em Anadias (AL) e faleceu em São Paulo (SP), aos 71 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Julia, Rosângela Aparecida dos Santos. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Júlia Palhardi, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 4 de julho de 2020.