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Luiz Pazzini

1953 - 2020

Ator e diretor, ele revolucionou o teatro do Maranhão.

Marcante, alegre, visceral. Assim amigos, alunos e plateias enxergavam o ator, bailarino e diretor de teatro Luiz Roberto de Souza, o Luiz Pazzini. Paulista radicado no Maranhão havia 28 anos, ele estava à frente do grupo Cena Aberta desde 2001, onde oferecia oficinas para professores, alunos, atores e quilombolas com alvo na memória. “O teatro do Pazzini é um teatro de fragmentos, uma cena completamente contemporânea, performática”, descreve Arão Paranaguá, professor aposentado de artes cênicas na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), onde Pazzini também deu aulas por 23 anos e ajudou a fundar o Centro de Artes. “Ele transformou a ideia de formação de elenco, deu ao Maranhão um novo status nas artes.”

Nascido na diminuta Severínia, quase divisa com Minas Gerais, Pazzini foi o terceiro de uma família de seis irmãos, mas quatro deles morreram de um “mal na espinha”. Passaram ilesos ele e a primogênita, Aparecida de Lourdes, a Cidinha, que se lembra do moleque pela inteligência: “Ela não aceitava um 95 de nota, queria sempre tirar 100”. Aos 18 anos, o jovem avisou que seu destino era São Paulo. Queria ser geólogo. Na capital, prestou concurso para o Tribunal de Justiça, onde conseguiu num emprego de meio período. No outro, cursou a Escola de Arte Dramática na USP. “A cabeça dele virou. Ser ator naquela época? A gente orava muito por ele”, diz a irmã.

Em 1992, tornou-se docente da UFMA. No Maranhão, encontrou a temperatura climática e artística que apreciava. Não à toa escolheu Alcântara, com seu rico conjunto histórico e arquitetônico, para fincar residência. “A cidade é um lugar de encantaria, mágico, perfeito para quem queria transitar entre a matéria e o etéreo”, diz Arão. Sua residência virou despensa de figurinos e cenários; sua conta bancária, fonte para produções. Pazzini tornou-se mais maranhense que qualquer um. Sabia fazer mogangas, trejeitos no falar, tal qual os nativos. Afinal, lembra o amigo, era um grande ator.

No dia 28 de abril, Pazzini deu entrada num hospital particular de São Luís com febre e tosse. Não havia testes disponíveis para covid-19, e ele voltou para casa com uma receita de antibiótico. Retornou no dia seguinte, pela manhã, já com falta de ar. Era do grupo de risco, não apenas por causa dos 66 anos. No final de 2018, havia tido um infarto, e só por causa dele largou a duras penas o cigarro de uma vida inteira. Morreu às 13h15 do dia 29. Cidinha e a mãe deles, Elza, assistiram ao enterro em São Luís, remotamente. “Ele era muito humilde, aqui em Severínia não sabíamos o quanto era famoso”, diz a irmã, num fragmento de saudade.

Luiz nasceu Severínia (SP) e faleceu São Luís (MA), aos 66 anos, vítima do novo coronavírus.

Jornalista desta história Mônica Manir, em entrevista feita com irmã e amigo Aparecida de Lourdes e Arão Paranaguá, em 9 de maio de 2020.