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Marcelina Figueiredo Chagas

1929 - 2020

Guerreira da natureza e religiosa: o encaixe perfeito entre o significado do nome e a personalidade.

Para quem amava relatar suas vivências, sua própria história virou inspiração para os cinco filhos, oito netos e cinco bisnetos.

As histórias que Dona Marcelina gostava de contar se referiam à sua difícil infância na roça, no interior de Minas Gerais. Ainda jovem, foi para São Paulo, em busca de oportunidades melhores. Por lá, houve o reencontro com Joaquim, que havia conhecido ainda no primário. Desse reencontro, veio um casamento de 63 anos e, vieram ainda seus cinco filhos. Teve oito netos e cinco bisnetos: ela com certeza, ao ver a família que havia construído durante a vida, sentia uma felicidade tão grande quanto sua história.

A querida “Maçu” gostava de receber visitas com um cafezinho, que era sagrado. Se a casa estivesse cheia, o sorriso no rosto não escondia o que ela estava sentindo no momento. Os almoços aos domingos, naquela mesa grande, no quintal de casa, era um hábito que estava sendo interrompido por conta da pandemia do coronavírus — a única coisa capaz de incomodá-la: ficar longe da família.

Passava horas cuidando do seu quintal, seus vasos, suas rosas, seu pé de acerola. Fazia do seu passatempo preferido, que era costurar, uma forma de presentear todos os netos e bisnetos. Ela fazia questão de costurar para cada um, uma peça de roupa. Podem até não usar mais, com o passar dos anos, mas cada detalhe, cada peça costurada, é uma parte de Dona Marcelina que nunca será esquecida.

Não foi só cuidadosa com os familiares, ela passou anos ao lado de seu marido, dedicando algumas horas de seus domingos para visitar doentes e idosos, levando a Eucaristia. Dona de muita fé, fazia parte da Pastoral da Saúde, da Igreja Católica da Vila Mangalot.

Quando internada, aos 90 anos, as videochamadas e os telefonemas não amenizavam a saudade de estar perto de todos os familiares. Apenas com a promessa de que, no dia seguinte, eles iriam visitá-la, aceitou ficar sozinha no hospital.

“Uma perda difícil de aceitar. Sem velório, sem despedida, sem vê-la uma última vez”, lamenta a filha Juliana, ao lembrar que a mãe, com alta programada, já recuperada da isquemia, começou a sentir os sintomas da Covid-19.

Marcelina nasceu em Januária (MG) e faleceu em São Paulo (SP), aos 90 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Marcelina, Juliana. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista João Alvim, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 26 de junho de 2020.