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Marcelus Lopes Fortes

1958 - 2020

Brincalhão, valente, de coração gigante, não desistia nunca: se não dava certo de um jeito, tentava de outro.

Marcelus era um brincalhão nato, daqueles que bastava um pouquinho de intimidade para tudo virar festa. Sua risada podia ser ouvida a longas distâncias, era um perfeito zoador, mas que não gostava de ser zoado.

Apaixonado por futebol, esse botafoguense não perdia um jogo, mesmo quando falava que deixaria de torcer pro alvinegro. Em 1988, em Ipatinga (MG), fundou o Industrial Master-A, um time de veteranos no qual jogou durante muitos anos e que depois passou a dirigir. Todo fim de ano, o time, junto com as famílias, tinha a tradição de se reunir em um sítio durante alguns dias.

Certo encontro, Presidente, como era chamado pelos companheiros, brincou com todo mundo e ninguém retrucou absolutamente nada. Até que, finalmente, no último dia, todos correram atrás dele e, quando conseguiram pegá-lo, sujaram-no inteiro de “tudo quanto é coisa que você pode imaginar. Foi a revanche do time para as brincadeiras. No final ele se divertiu, sabe que foi merecido”, conta o filho Nikolas.

Para além do futebol, sua maior paixão era pela família. Perdidamente apaixonado pela esposa Eremita, e com um amor incondicional pelos filhos, fez de tudo para que nunca lhes faltasse nada. Trabalhou muito, em diversas cidades e atividades relacionadas ao setor industrial, como gerente de obras no Maranhão e Rio Grande do Sul e, principalmente, como representante comercial. Apesar da distância e do maior desafio – a saudade que sentia – batalhou, trabalhou e aprendeu muito, tudo para proporcionar o melhor para sua família. "Minha aposentadoria não é o suficiente", dizia.

Era pai protetor, daqueles que movem o mundo pelos filhos. “Na formatura do Nikolas, cheguei em casa já de manhã, estava frio em Viçosa. Deitei e pouco tempo depois meu pai levantou, pegou a coberta dele, me cobriu e afofou embaixo de mim. Como se fosse um casulo, sabe? Como fazemos com criança. Não importava pra ele se já estávamos adultos, ele sempre nos protegia e cuidava da melhor maneira possível”, conta a filha Marcella, que complementa: “Meu pai foi um guerreiro até o último momento. Nunca desistia! Se não dava certo de um jeito, ele tentava de outro. É nele que eu penso quando algo está difícil e não sei o que fazer.”

Marcellus – sim, com dois l’s, pois era a forma como ele se apresentava, achava mais bonito assim – era permeado pela vida ao redor da família. Do pai Ezequias, puxou as brincadeiras exageradas, o profundo amor pela esposa e a força de vontade; da mãe Maria, o desejo por doces e a mania de escondê-los para comer sem que ninguém visse.

Filho do meio, amava profundamente os irmãos Marcos e Márcio. A distância entre eles podia ser dura e a saudade, enorme, mas eles faziam de tudo para se encontrarem pelo menos uma vez por ano. Os natais em família eram sempre dias especiais, regados de muita diversão e amor. Em 2019, quanta felicidade! Eles se viram quatro vezes, um ano mágico que ficou marcado na vida de todos.

Em um desses encontros, Marcelus, junto com o filho Nikolas, cruzou de Minas Gerais ao sul do país de carro, saindo de Porto Alegre até Ipatinga e vice-versa, para encontrar a família. Ele insistiu para que o filho fosse de avião com a mãe, mas este bateu o pé, pois, além de dosar o pai no volante, para que a viagem não fosse feita em menos de um dia, também almejava ter essa experiência, por mais cansativa que fosse. “Valeu a pena”, lembra Nikolas.

“Se eu conseguir ser metade do homem que ele foi já é o suficiente pra deixar o mundo ao meu redor um pouquinho melhor", acrescenta. "Porque ele fez muita gente feliz, marcou a vida de muita gente. No final são as lembranças que a gente deixa que definem nossa vida. Não é o que a gente tem de bens materiais, não é aquilo que a gente conquistou pessoalmente, mas sim o que a gente fez que atingiu e marcou as pessoas que a gente gosta. E isso ele fez direitinho.”

A saudade se faz presente em diversos corações que tiveram contato com esse grande homem. Familiares, amigos, time. Mas as lembranças e aprendizados ficarão marcados para sempre na mente de cada um deles.

Marcella, em seu último Dia dos Pais com ele, o homenageou: “Para aquele que me deu tudo que tinha para que eu tivesse mais do que precisava”. Nas linhas da memória de seu filho, nunca será esquecido: “O amor permanece acima de todas as coisas e a gente nunca deve deixar pra depois o que podemos fazer agora”. Ensinamentos profundos que demonstram seu enorme coração, sua grande perseverança e uma indescritível dedicação.

Marcelus nasceu em Brasília (DF) e faleceu em Ipatinga (MG), aos 62 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de Marcelus, Nikolas Mendes Fortes. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Maíra Teixeira Ferrari, revisado por Paola Mariz e moderado por Rayane Urani em 19 de setembro de 2020.