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Maria da Salete Henriques

1957 - 2020

O que Salete fez de melhor nessa vida foi servir ao próximo e cuidar dos seus com muito amor.

Salete era filha de José e Maria e nasceu na Paraíba. Mudou-se para Brasília em busca de uma vida melhor e logo foi trabalhar na relojoaria de seu irmão Eliseu. Trabalhou também como diarista, vendedora de lingerie, autônoma e chegou a ter a própria relojoaria. Era dedicada em tudo que fazia, atenciosa e muito família. Sensível, batalhadora e incansável em aprender. Educou sozinha a filha Débora e juntas venceram batalhas e tiveram muitas conquistas.

Generosa, era um anjo na Terra. Ela deixou o trabalho na relojoaria para cuidar da mãe e de duas irmãs portadoras de esquizofrenia. Sua dedicação era tamanha que estudava bastante e tinha o sonho de ser psicóloga, motivada a ajudar ainda mais as pessoas com distúrbios psíquicos. Esse sonho ela infelizmente não realizou, mas poderia ter recebido um prêmio por toda sua dedicação. Salete foi a segunda mãe de mais de dez sobrinhos. Com a morte da mãe em 1999, passou a cuidar do pai, que faleceu em 2015. Por conta de problemas de saúde, teve que colocar uma das irmãs, Dora, aos cuidados de uma casa de repouso. A outra irmã, Pedrina, foi cuidada por ela até o início de junho de 2020, ao sofrer um ataque cardíaco fulminante. Pouco mais de um mês depois, Salete partiu, o que deixou dúvida sobre a real causa da morte da irmã, apesar delas estarem em condição de isolamento social.

Olhando assim, pode-se imaginar que Salete teve uma vida difícil e sofrida, mas não... ela era uma pessoa muito divertida. Gostava muito de ler e conversar sobre todos os assuntos. Adorava ir à praia e gostava de viajar. Em 2015, após sua aposentadoria e a filha ter conseguido um emprego, puderam viajar mais. Até um cofrinho ela comprou para guardar as economias para a próxima viagem. Conhecida pela sinceridade nos conselhos, os sobrinhos já sabiam que não teriam meias-verdades com ela. Entretanto, tudo era dito com uma sinceridade calma, cautelosa, pois nunca deixava de falar o que pensava. Ela sabia usar as palavras como ninguém e sempre citava um trecho da Bíblia: “Seja simples como as pombas, mas prudente como as serpentes”.

Salete era uma mulher religiosa. Praticante do catolicismo, adorava ir à missa e quando, por conta da pandemia, assistia às missas do Papa pela televisão na companhia da filha, que se recorda da mãe dizendo: "Eu ia à missa sempre que podia, porque a gente não sabe até quando poderemos ir”. Era fã das músicas do Padre Zezinho e a sua favorita era “Um Certo Galileu”.

A despedida veio através de um vídeo que ela, muito resolvida, convenceu um enfermeiro a gravar e enviar para a filha. No vídeo, a dona Salete diz: "Eu te amo! Tá tudo certo... Não se preocupa comigo, tá bom?! Não se preocupa com nada! Olha a minha cara", disse sorrindo e mandando um beijo para Débora. O sorriso de despedida ficará para sempre eternizado, sua lembrança de mulher generosa e amorosa hoje enche a casa habitada pela filha.

Até o fim, foi alguém que dedicou-se a trazer conforto e alívio para os que amou. A saudade eterna.

Maria nasceu em Itaporanga (PB) e faleceu em Brasília (DF), aos 62 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Maria, Débora Samanta Henriques Roquete. Este tributo foi apurado por Viviane França, editado por Ana Clara Cavalcante, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 4 de fevereiro de 2021.