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Maria Emília de Lima

1941 - 2020

Impecável em tudo que fazia, era apaixonada pela família e pelo Natal.

Se Dona Emília precisasse ser definida com apenas um adjetivo, seria “impecável”.

Durante toda sua vida, nunca deixou a desejar. Seja no quesito trabalho, com a família ou no cuidado com o lar. Nos tempos em que trabalhou fora, no ofício de lavar roupas ou faxinar casas e prédios, jamais descuidou da própria casa. Estava sempre impecável.

Jamais se esqueceu de sua beleza pessoal. Mulher vaidosa que era, quem passasse por dona Emília sempre a encontrava com os cabelos cortados, unhas bem feitas, figurino caprichado e, é claro, um bom perfume. Aliás, tinha uma coleção deles.

Se por fora gostava de estar radiante, os adereços eram o brilho de alguém que tinha uma alma doce e um coração de bondade imensa. Era como os enfeites de uma linda árvore de Natal, que embelezam por fora, mas que, todos sabem, é o símbolo de algo sagrado.

E por falar na data festiva, sempre foi tradição na casa de Emília montar o pinheirinho. O ritual era tão esperado que ela fazia questão de deixá-lo impecável ainda em novembro.

Luiz Cavalcante de Lima, o companheiro de vida de Emília por sessenta anos, também tinha papel importante no ritual do Natal. Todo ano, quando chegava a hora, ele se levantava um pouco mais cedo e montava a estrutura da árvore antes de sair para o trabalho. Quando chegava em casa, à noite, o pinheirinho já estava pronto.

Do amor duradouro de Luiz e Emília, sete filhos nasceram. Dois deles, partiram antes dela. Além deles, a neta Fernanda, sempre foi tratada como filha pelo casal. É que a mãe biológica de Fernanda, Maria José, era muito jovem quando ela nasceu.

Quando Maria José decidiu casar, Emília sentenciou: “você vai, mas a menina fica”. Ali começava uma relação de muita cumplicidade.

As duas eram tão grudadas que Emília dizia que jamais deixaria Fernanda se casar. Era brincadeira. Mas quando esse dia chegou, e a neta/filha saiu de casa, Maria Emília ganhou uma cachorrinha. Luna, como era chamada a cadelinha, era tratada como filha e recebia todos os mimos possíveis.

Era dona Emília, sendo impecável mais uma vez. E de tão apaixonada pela família, gostava que estivessem todos reunidos. E não apenas no Natal. Era durante o ano todo.

A alegria dela era ver a família reunida ao redor da mesa, saboreando sua comida. Quando o almoço acabava, ia logo tocando o pessoal, em tom de brincadeira: “aí, vamos sair todo mundo da minha cozinha”. Às vezes, pedia licença antes mesmo de a refeição estar pronta. Era o gênio geminiano falando.

E também nunca deixava que tocassem em suas panelas. Era ela quem comandava, sempre, de forma impecável, todas as festas e reuniões.

A matriarca foi tão única que a cachorrinha Luna não aguentou de saudade. Um mês após a partida de sua mãe humana, tratou de ir encontrá-la no Céu.

Maria nasceu em São Miguel de Taipu (PB) e faleceu em Santos (SP), aos 79 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta de Maria, Fernanda Cavalcanti dos Santos . Este tributo foi apurado por Patricia Garzella, editado por Larissa Paludo, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 4 de novembro de 2020.