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Maria Julia Fernandes

1957 - 2020

Agora tudo está em silêncio, falta a voz, o canto, o assovio, os conselhos e a alegria de Maria.

Maria saiu do Ceará quando tinha 10 anos, em cima de um pau-de-arara com os pais, uma irmã̃ e dois irmãos. Seu pai trabalhava como porteiro e sua mãe era lavadeira autônoma. Foram morar em Sepetiba, numa casa emprestada de um amigo de seu pai. Ficaram ali por três anos, até que se mudaram para uma casa em comunidade próxima de Copacabana. Ainda menina, Maria lavava, cozinhava e cuidava dos irmãos. Agora, haviam nascido mais três filhos. A vida era sofrida, porque além da pobreza, Maria Júlia sofria as consequências do alcoolismo de sua mãe e dos maus-tratos a que era submetida para cuidar da casa. Ainda assim, contou-nos sua irmã Francisca, “não sei de onde ela tirava uma alegria sem fim e um desejo de brincar sem parar. Ela nos levava pra brincar nas matas perto de casa”.

A irmã contou que no morro havia um balanço em uma ribanceira, que era chamado Caroço: “Uma pessoa sentava no meio e, quando ele voltava, todas as crianças subiam e era disputado um espaço na corda para cada mãozinha e ficávamos dependurados, na volta alguns pulavam”. Mas um dia houve um acidente, Maria não conseguiu voltar e despencou ribanceira abaixo, de uma altura de uns cinco metros.

“As crianças ficaram assustadas, eu chorava em silêncio, havia medo no ar. De repente, a gente ouviu um barulho de galhos e lá vem Maria cambaleando”, conta Francisca. O capim e a mata amorteceram a queda e Maria havia sobrevivido. Entre gritos e risos todos se abraçaram aliviados e felizes.

Algum tempo depois, Maria casou-se pra se livrar das agruras de casa e foi para Minas Gerais, onde teve dois filhos. Mas o casamento não durou. Retornou ao Rio e teve alguns namorados, mas não tolerava relacionamentos abusivos. Encontrou seu grande amor, Passarinho, trabalhando em um bar no Jardim Botânico. Era garçom. Os dois curtiram muito a vida juntos. “Ela sempre cuidou de mim”, contou a irmã. Maria teve quatro filhos: Josie, Antônio, Cesar e Tati. Cuidava de cada um individualmente com todo carinho. Sua casa era simples e acolhedora.

Todo final de semana Maria gostava de reunir a família em sua casa para um bom churrasco e muita música. Maria gostava de dançar desde criança. Passarinho, seu marido, também gostava de receber com simpatia. A casa ficava cheia de irmãos, sobrinhos, genro e netos. Mas o sofrimento de Maria foi sempre presente. Deus levou o primeiro neto assassinado. Maria quase morreu junto. Sua mãe morreu logo que surgiu a Aids. Um infarto levou seu grande amor, o Passarinho.

Trabalhou durante muitos anos como empregada doméstica para criar os filhos. Mais recentemente, trabalhava com a irmã Francisca em um pequeno restaurante familiar. “A comida da Maria fazia sucesso. Ela fazia com muito zelo e carinho e sabia o gosto de cada cliente”, contou Francisca. Além disso, a irmã nos contou que Maria era uma pessoa de verdades, que não admitia duas conversas, que dizia na cara o que pensava, embora fosse de jeito calmo e generoso. Mas se tivesse de brigar, “sai de baixo”, porque era boa de briga também.

Com tantas perdas e dores na vida, a irmã contou que foi a chegada dos netos gêmeos que veio preencher um imenso vazio em sua vida. As crianças eram a força dela, a paixão. A irmã contou que “Pareciam três crianças juntas. Eu ficava esperando ela aparecer no meu portão com as crianças assoviando. Eu corria feliz! Ela não parava. Levava as crianças para todos os lugares. Tinha muita energia. Sabia que tinha hipertensão e diabetes. Mas tomava remédios e se cuidava, pois dizia que iria viver até os 100 anos”.

Por onde chegasse, alegrava todo mundo, sempre com a palavra certa para cada um, ainda que alguém não quisesse ouvir. Era muito próxima dos filhos. Era grudada com sua filha Josie, nas brincadeiras e nas brigas. Tati era mais independente, mas o cuidado era o mesmo. Antônio e César, seus bebezões, respeitavam a autoridade da mãe, todos quatro de boa índole e trabalhadores, carinhosos e muito apegados. Adoravam dormir na cama da mãe, ali na pequena casa que estava quase caindo. O grande sonho de Maria era fazer uma grande reforma na casa e poder colocar os netos dentro dela dignamente. Mas mesmo sem conseguir, sempre agradecia a Deus seu pedaço de chão e teto que a cobria.

Tinha feito uma dieta, contou a irmã, “estava tão linda”. Nunca demonstrava tristeza, desânimo. Ela cuidava de todos. Ajudar era seu desígnio, era sua missão. Uma vizinha adoeceu. Lá se foi Maria cuidar, com máscaras e álcool. Veio a dor de cabeça. Os sintomas da gripe chegaram. Os filhos se desesperaram. Fizeram uma boa alimentação, sucos, ela melhorou um dia, no outro dia veio a fadiga, a falta de ar... A filha Josie prometeu: “Fica tranquila, mãe, eu cuido das crianças”. Uma dor imensa tomou conta de toda a família. E a Francisca conclui: “E a gente fica esperando que ela suba de novo a ribanceira e diga tô aqui, pessoal”.

Maria nasceu no Ceará e faleceu no Rio de Janeiro, aos 63 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela irmã de Maria, Francisca Fernandes. Este tributo foi apurado por Sandra Maia, editado por Sandra Maia, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 11 de julho de 2020.