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Maria Neite Soares de Lima

1930 - 2020

Duas palavras resumem bem essa matriarca: vida e generosidade.

Era uma amante das plantas, do artesanato, dos passeios, da música e, sobretudo, da família e da vida. Tinha o dom de transformar cada local triste onde chegasse em um ambiente de imensa alegria. Por isso, não é de se estranhar que era querida por onde passava.

Uma mulher guerreira e batalhadora. Foi funcionária pública dos Correios e também na UFRN — ficar parada nunca fez parte de sua vida.

Era muito habilidosa com as mãos e foi professora de corte e costura, de flores e bordados. O artesanato era seu foco, principalmente os trabalhos em fuxico, mas ela sempre retrucava: "Sou fuxiqueira, faço fuxicos... mas não gosto de chafurdos nem de pessoas mentirosas, não sou fofoqueira!"

Hospitaleira e boa anfitriã, Dona Neite recebeu em sua casa muitos sobrinhos e até parentes de familiares que iam para a capital estudar ou trabalhar — mais uma prova da generosidade dessa devota de Nossa Senhora de Fátima.

A filha Jeane conta que a mãe era "matriarca nas suas decisões e uma pessoa perfeccionista, que possuía 'olhos de águia' — via as coisas erradas a um quilômetro de distância. Se alguém, porventura, esquecesse alguma coisa fora do lugar por dois segundos, ela notaria, na hora!"

Nos seus últimos dias, já no hospital, ainda teve fôlego para fazer uma das muitas coisas de que gostava: cantar. Foi considerada a "paciente cantora" do setor do hospital onde permaneceu internada. "Era uma cantora nata", disse a neta Janaína.

Maria Neite nunca se acostumou muito bem com as videochamadas e sofreu pela ausência dos familiares durante a internação, porque queria vê-los; na verdade, o que ela queria mesmo era ver o seu marido, Antônio, de 95 anos, de quem tinha muito ciúme desde o início dessa união, no comecinho da década de 1950. É certo que ela será insubstituível para ele, que já não ouve muito bem, mas que ainda entende tudo o que está acontecendo.

A neta Janaína sentirá muita falta das comidas da avó, que cozinhava divinamente, e conclui: "o vazio deixado por ela jamais será ocupado por alguém. A saudade é imensa para todos, a alegria da casa era ela. Essa era a dona Neite, a minha avó, a pessoa que conheci, aquela pessoa que amava a vida, mesmo diante de todas as adversidades. Um coração tão bom... um exemplo a ser seguido. Boa viagem, vovó! Até breve. O amor nunca morre."

Maria nasceu em São Paulo do Potengi (RN) e faleceu em Natal (RN), aos 89 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta e pela filha de Maria, Janaína de Lima Veiga e Jeane Maria de Lima. Este tributo foi apurado por Lígia Franzin, editado por Lígia Franzin, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 18 de setembro de 2020.