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Maria Neuza de Souza Silva

1956 - 2020

Tinha um coração que transbordava generosidade e um humor espontâneo, do nada soltava suas "bobeiras".

O trabalho de segunda a segunda no sacolão não tirava a alegria de Neuza. Alto-astral, ela possuía um bom humor espontâneo. Começava a falar algo trivial e soltava uma das suas bobeiras de repente, às vezes até palavrões. Tanto no atendimento ao cliente quanto com os familiares, tinha esse jeitinho único de conversar e ser.

A filha Renata trabalhava com Neuza desde o ano 2000, os dois genros também faziam parte da equipe. Ela conta que a mãe era mais animada do que ela, não conhecia preguiça. Renata apreciava a companhia de Neuza em tudo que fazia. "Você me faz de escrava", falava referindo-se aos pedidos de ajuda da filha. Mas Renata confessa: "é que eu queria ela sempre por perto, não sabia ficar sem ela".

Além de dividirem a jornada de trabalho, moravam no mesmo quintal. O tempo era praticamente todo dedicado ao sacolão. Porém, as tarefas restantes também faziam juntas.

Um dos netos, Bernardo, filho de Renata, também era muito apegado à Neuza. Tanto que quando a pandemia começou, ele aconchegou-se na casa da avó. Foi assim, esse grude, desde que ele nasceu.

Nicole, a primeira neta, rebenta da outra filha, Fabiana, também ficou muito na casa da avó em seus primeiros anos. João Lucas, o caçula, foi para a escolinha desde muito novinho, mas aproveitava tudo que Neuza tinha de bom no tempo sem aulas.

Mais do que vender alimentos, Neuza era boa de garfo, comia de tudo. Também cozinhava uma deliciosa farofa com banana-da-terra. O arroz com feijão ganhava outro sabor quando preparados por ela. E não havia quem fazia um arroz-doce igual.

Agradava o marido Nilson com as comidas prediletas dele. Neuza xingava seu grande amor, mas o mimava muito mais.

Também ajudava a alimentar quem precisava. Renata conta que um jovem que sofre com transtornos mentais a procurou com um pedido especial quando dona Neuza partiu: "Não me deixe passar fome, sua mãe me ajudava". Ela nunca deixava de atender um pedido de ajuda, comuns na porta do sacolão.

Viveu sorrindo e deixou muitas saudades, além de lições.

Maria nasceu em Resplendor (MG) e faleceu em Belo Horizonte (MG), aos 63 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Maria, Renata de Souza Silva. Este texto foi apurado e escrito por Talita Camargos, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 28 de julho de 2020.