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Maria Salomé Teixeira Martins

1931 - 2020

Ajudava e cuidava de todos, lembrava o aniversário de cada familiar e era sempre a primeira a dar os parabéns.

Dona de uma trajetória religiosa incrível, fez voto de pobreza e durante setenta anos dedicou-se aos mais necessitados, na Congregação da Imaculada Conceição. Escolheu a vida religiosa aos 18 anos, seu nome de congregação era Irmã Maria Feliciana Imaculada Conceição, como se apresentava e era conhecida.

Em alguns momentos até poderia ser a Madre Superiora mandona, mas, no fundo, aquela pequena, com seus marcantes 150 cm, tinha uma responsabilidade enorme em salvar vidas. Trabalhou no norte e nordeste, sempre no interior do Brasil, onde exercia atividades de enfermagem e, durante muito tempo, foi responsável por hospitais e conventos.

Sempre ajudou Deus e o mundo, mas isso nunca foi motivo para se afastar, ela se fazia presente também na sua família. Sua sobrinha, Vanderléia, lembra como era viver com a "Tia Freira", apelido carinhoso dado pelos sobrinhos: "Nunca vou esquecer do medo que eu tinha daquela roupa toda preta, eu tinha 3 anos, e quando a Tia Freira chegava para nos visitar, eu me escondia no quarto, mas deixava a mão para o lado de fora e ela trazia chocolate. Aquilo era a melhor coisa do mundo!"

O tempo passou e a roupa preta mudou, eles finalmente descobriram a cor dos cabelos da tia e também seu jeito meigo, sem perder a característica de mandona. Tia Freira era a voz da experiência, queria o melhor para os sobrinhos, aquele chocolate nas visitas sempre se fez presente.

Ela era uma espécie de heroína da memória, lembrava o aniversário de todos da família e, impreterivelmente, fazia a primeira ligação do dia. Apesar da lista imensa de irmãos, sobrinhos, cunhados e amigos, todos tinham espaço no coração e naquela memória infalível, ela ligava e falava sempre: "Já pedi a Deus por você hoje!" Irmã Feliciana foi para o lado Dele cuidar de todos como sempre fez.

Maria nasceu em Monsenhor Tabosa (CE) e faleceu em Alenquer (PA), aos 88 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela sobrinha de Maria, Socorro Vanderléia Ferreira. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Letícia Sansão, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 29 de agosto de 2020.