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Marlon Ferreira

1975 - 2020

Dizia todos os dias que a língua do seu povo Fulni-ô não podia se perder

Marlon era um viajante, amava andar pelo Brasil. Saía de Águas Belas em Pernambuco com a mala cheia de artesanatos e de vontade de falar sobre sua cultura. Andou muito pelas estradas do nosso país vendendo seu precioso artesanato, participando de encontros indígenas, exposições e passando seus ensinamentos.

O mais importante para ele era falar sobre seu povo. Quando o assunto era preconceito indígena, não levava desaforo para casa, defendia os seus com muita garra. Dizia todos os dias que não podiam perder a língua mãe do povo Fulni-ô, o yathe. Tinha uma prontidão admirável em ensinar quem quisesse aprender. De todos os rituais, seu preferido era juntar amigos e amigas na sua casa e ensinar a língua do seu povo.

Marlon queria eternizar sua língua e agora que se foi, está eternizado em cada um de seu povo que hoje fala yathe.

Marlon nasceu em Águas Belas, PE e faleceu em Recife, PE, aos 45 anos, vítima do coronavírus.

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Sobre o povo Fulni-ô
Os Fulni-ôs habitam o sertão de Pernambuco há mais de 400 anos. Descendem de 4 clãs que moravam no litoral, perto de Recife e Olinda. Eram nômades, caminharam até a cidade de Águas Belas e lá se fixaram perto do Rio Ipanema. Sua população tem cerca de 7.000 pessoas e vivem em uma área de 11.000 hectares. Além do português, falam sua língua original Fulyy dô, que significa: homens à margem do rio.

História na língua originas Fulni-ô
Ta-nekhyaka tx'txaidey ia-kh'thsalé edwat'sadodwa .
Sásehe sets'nehe suasôi eudoákhya . Ôoya d'mãanedwade t'khatxikhyaka sak'toonawá sato eeléy away ta-thxuf'nika ióate , sêt'so khoodjoude ta-tetíkhyakade .
Nemã tooná téefēedoakhyahe yaathê , nemã sat'ke tãamakhya sam'titwa sato keinite téethwawáatikhyaka.
Nemãlwa noseh'le, nefão takaihe iak'toá têeke .
Ta-saulīikyase ôoya d'maanedwake nemã ta-iat'kase pal'nokake .

Marlon nasceu Águas Belas (PE) e faleceu Recife (PE), aos 45 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido primo de Marlon, Kenio. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Gabriela Veiga, revisado por - e moderado por Rayane Urani em 16 de junho de 2020.