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Natalia Murad Viana Pereira

1997 - 2020

A cor preferida dela era laranja, às vezes rosa. Na verdade, Nat era colorida.

Nat nasceu em São Luís. Amava aquele lugar, sempre falava de tudo de lá, da comida, do carnaval, da festa de São João, da praia, da cultura, dos passeios pelo centro histórico. Sempre que tinha a oportunidade dava um jeito de voltar para visitar a família e os amigos. Aliás, Nat era muito família e mantinha todos sempre em seus pensamentos, tomando conta de tudo mesmo estando longe.

O amor a arte trouxe Nat a São Paulo, onde frequentou a faculdade de arquitetura. Apesar de pouco tempo, foi a ponte para sua verdadeira paixão, o curso de Publicidade e Propaganda, no qual se entregou com total dedicação.

Era noveleira, amava comédias românticas adolescentes, chorava rios com "Diário de uma paixão" e adorava "A barraca do beijo", por se parecer muito com a protagonista. Curtia maratonar a série "Riverdale" e era a rainha do Twitter, onde adorava militar, diga-se de passagem. Queria participar do Big Brother para disseminar sua sensatez e sinceridade, além de ganhar todas as provas com sua mente brilhante. Era fã número 1 de Jonas Brothers, gostava de Roberto Carlos e Ivete... eclética, né?

Nat emanava energia e alegria, certamente era iluminada, sendo impossível ficar perto dela e não se entregar ao seu sorriso contagiante. Sua risada então, nem se fala, era hilária! Quando ela soltava aquela gargalhada, não tinha quem não parasse para olhar. Estar ao seu lado nesses momentos, era uma mistura entre querer rir junto e se esconder para não passar vergonha. Autêntica, suas caras e bocas diziam mais do que mil palavras. Ela se intitulava um "meme ambulante" e não tinha vergonha nenhuma do que os outros pensariam dela. Cativava sempre a todos com sua personalidade.

Amava viajar. Tinha uma lista de desejos com os lugares que queria visitar. Ela chamava suas viagens de “MuroTour”. Viajava na maionese também, principalmente quando estava com os amigos, parecia que tinham voltado a infância. Frequentava feirinhas, museus e livrarias. Adorava passear pela Oscar Freire e sempre que ia por lá, comia o strogonoff do Chez, era praticamente obrigatório.

Ela não era muito fã do gosto da laranja nos alimentos e sua bala preferida era de iogurte; tomar um cafezinho da tarde era como uma terapia, sempre que podia, passava em algum lugar para comer uma fatia de bolo. Tinha uma lista enorme de cafeterias para visitar, tanto em São Paulo como em São Luís. Não só amava tomar café, como também ajudava a cuidar do café de sua mãe no shopping de SLZ. Ajudava no caixa, fazia a comida, oferecia degustação aos clientes, cuidava do marketing e até curso de barista ela fez. Ela se doava por inteiro quando fazia algo que amava.

Ela era justa. Defendia o que acreditava até o final. Tinha um coração puro, lindo e honesto. Ela era corajosa e também era a amiga que encorajava. Nat era um porto seguro, estar ao lado dela deixava tudo mais leve. Sempre que uma pessoa que ela amava tinha um problema, ela buscava por uma solução.

Nat era muito companheira. Com ela não tinha tempo ruim, topava tudo e mais um pouco. E ela combinou tanto...tinha uma fila e uma lista de “to do’s” com cada um de seus amigos. Ela era sinônimo de união. Queria juntar todos os seus amigos e festejar, ou simplesmente chamar todos em sua casa para comer fondue, conversar ou para fazer uma jogatina. Era apaixonada por jogos! Poker, dominó mexicano, tudo. Era bem competitiva, mas acima de tudo se divertia. Rodeados por baldes de pipoca e jujubas vermelhas, nenhum amigo dela sabe ao certo quantas noites de jogos tiveram em sua casa. E podiam ser jogos alcóolicos também, envolvendo gin e tequila, suas bebidas preferidas.

Metade da Nat era extremamente festeira, mas a outra metade, mesmo que ficasse em uma festa até o amanhecer, pedia por um banquinho para ali descansar seu lado idosa. Em contrapartida, pulou um carnaval inteiro de pé quebrado.

Ser telespectador da vida da Nat era incrível. Era uma mulher inteligente, talentosa, multitarefa. Era motivo de inspiração e orgulho. Participou de praticamente todos os eventos sociais da escola, dançou em todas as festas e também fez parte da comissão de formatura do seu último ano do colegial, assim como estava fazendo parte da comissão da faculdade. Gostava sempre de estar por perto, organizando tudo e criando o que pudesse.

Pensar na Nat faz a gente dar risada, só de lembrar os incontáveis momentos felizes que todos tivemos com ela. Encontrar uma Nat nesse mundo é como ganhar na loteria. Hoje, só nos resta sentir saudade. Pensar nela será, a partir de agora, um lembrete para viver a vida intensamente, assim como ela viveu.

Natalia nasceu em São Luís (MA) e faleceu em São Luís (MA), aos 22 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelos familiares de Natalia. Este tributo foi apurado por Rayane Urani, editado por Julia Assalian Maria, revisado por Juliana Holzhausen e moderado por Rayane Urani em 28 de julho de 2020.