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Noêmia Josefa do Nascimento

1937 - 2020

“Nunca dependa de homem para nada, minha filha!”, era o lema dessa pernambucana encantadora e destemida.

Foi com sete anos que essa menina batalhadora saiu do Engenho de Pantorra para viver na cidade do Recife. Mas essa mulher de fibra não se deixou abater por nada, nem pela separação. De jeito nenhum! Noêmia trazia em sua alma a resiliência da mulher nordestina, construída sobre a fé, o trabalho e o amor ao próximo e à sua família.

Criou sozinha e com a ajuda de Nosso Senhor, nove filhos, orientou a educação de 25 netos, 32 bisnetos, cinco tataranetos e mais o sobrinho Samuel, que acolheu como filho legítimo, assumindo sua educação e sustento desde um ano de idade. Um dos dez filhos, Gilson, sofreu um acidente e ficou acamado, dependendo dos cuidados de Noêmia até falecer. Não tinha medo de nada nessa vida, essa mulher espetacular. Ia ter medo de trabalho? Pois foi com o suor de seu rosto, sempre iluminado por um sorriso lindo, que Noêmia deu conta de garantir que nada faltasse à sua família.

A neta, Fabiana, conta que sua avó “Nunca dependeu de homem, nem de ninguém para colocar comida dentro de casa e um teto sobre a cabeça de seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos!”. Era a referência de vida para todos eles. Com seu jeitinho simples e faceiro, os olhinhos apertadinhos e o rostinho redondo, essa mulher incrível era pequena na estatura física, mas gigante em coragem, solidariedade e amor.

Passou a vida inteira trabalhando em casas de família. Por um curto período trabalhou numa fábrica de doces. E, quando chegava em sua casinha, tratava logo de deixar tudo arrumado e limpo, tinha muito orgulho de ter um lar repleto de afeto e alegria. Todos ali eram bem recebidos e tratados com carinho.

Noêmia tinha mãozinhas de fada para cozinhar, tudo que ia parar em seu fogão, dentro de suas panelas, era feito com extremo capricho. Não havia quem não gostasse de seu tempero. É que Noêmia, além de ser uma cozinheira de mão-cheia, era “boa de garfo” também. Fabiana conta que a avó vivia dizendo “Tô com fome! Não comi nadinha ainda hoje!”. Mas seu ponto fraco mesmo era uma farofinha de charque, bem temperadinha – comida típica do sertão nordestino; e os docinhos que ela comia escondido, pois era diabética. Diabética e teimosa que só ela!

Fabiana viveu muitas alegrias junto de sua avó amada. No entanto, lembra de dois momentos marcantes em sua vida. O primeiro foi quando morava perto da Vó Noêmia e podia acompanhá-la ao trabalho; conta que era um privilégio ver com que amor Noêmia cumpria com as lidas de sua profissão: limpava, arrumava e cozinhava sempre cantando e batendo palmas, amava louvar ao Senhor entoando hinos da igreja.

O segundo, foi proporcionar à avó sua companhia e cuidados, durante e depois da tão sonhada cirurgia de catarata. Noêmia já era aposentada; quase não enxergava mais. Demorou dois anos para conseguir a vaga no hospital. Fabiana conta, que quando saiu à rua com a avó, depois da alta hospitalar, Noêmia parecia uma criança. Não parava de falar das coisas que estava vendo, dizia encantada: “Olha só como o chão da rua brilha! Tá molhado, filha?”; “Olha aquele moço de camisa amarela, que cor berrante, né mesmo?!” E por fim disse o clássico “Ôxi! Tô com fome!”

As histórias são infinitas, as lembranças não podiam ser mais bonitas. E é com o coração cheio de orgulho que Fabiana fala de Dona Noêmia: “Duvido que tenha, nesse universo inteirinho, pessoa melhor que minha avó!”. E quem parte desse mundo, deixando para trás esse legado, pode descansar em paz. As saudades de Dona Noêmia apertam no peito da neta que diz: “Pra mim, minha avó ia viver pra sempre!” E ela vai mesmo viver para sempre, nos olhos curiosos de cada criança dessa família, nos abraços afetuosos entre os irmãos, na fé em Deus e na certeza de que o céu ficou mais bonito com a alegria e a bondade dessa mulher encantadora que só fez distribuir o bem e a generosidade de seu imenso coração.

Noêmia nasceu em Cabo de Santo Agostinho (PE) e faleceu em Recife (PE), aos 82 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela neta de Noêmia, Fabiana do Nascimento Silva Codeceira. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Ana Macarini, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 31 de julho de 2020.