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Odete Juanoni Milanelo

1940 - 2020

Impecável na limpeza da casa, foi cortadora de cana e se tornou leitora voraz de romances policiais.

Batalhadora desde muito cedo, viveu uma infância difícil em meio à pobreza. Perdeu a mãe quando ainda era bem pequena, por volta dos 3 anos, e foi criada pelos três irmãos mais velhos. Moravam em um sítio e ajudavam o pai na roça. Aos 8 anos, ela já estava encarregada de levar a marmita para as irmãs no canavial. Conheceu a fome, sentiu desejo de coisas simples, houve momentos em que comer uma maçã não estava ao seu alcance, mas suportou tudo com fé, acreditando que dias melhores viriam.

Cresceu entre os chamados boias-frias e tornou-se cortadora de cana-de-açúcar aos 12 anos, quando a tarefa de colheita ainda era feita manualmente. Cortava a cana com foice, juntava, amarrava e depois carregava o fardo no ombro. Trabalho que cumpriu por quatro anos, sob um grande desgaste físico, o que lhe gerou um problema na coluna, resultando num ombro mais baixo que o outro.

Por volta dos 16 anos, foi levada para ser babá e faxineira numa residência familiar. Em seguida, com 18, foi trabalhar numa loja de tecidos e vestuário em Piracicaba, "Lojas Everest". Durante uma de suas férias, resolveu fazer uma excursão com algumas amigas para realizar o sonho de conhecer o mar em Santos. Pois, foi também nessa viagem, que encontrou seu grande amor pela primeira vez: o coração bateu mais forte que as ondas quando os olhares de Odete se cruzaram com os do jovem Ademir, que viria a ser seu futuro marido. Apaixonaram-se. Casaram-se.

Ele era técnico em eletricidade e foi contratado para trabalhar em Campinas, na fábrica de câmbios "Clark". Lá, tiveram o primeiro filho, Adriano, e por lá moraram por cinco anos. Depois foram para Tietê, a cidade natal de Ademir, e veio uma filha, Andrea. O casal construiu uma vida alicerçada no trabalho e na dignidade; compraram uma casa própria e Odete passou a se dedicar à casa e aos filhos. Era famosa por sua faxina impecável. Sentia tanto prazer em manter a casa limpíssima que a família zombava, dizendo-lhe que dava para comer direto no chão, de tão limpo que o piso ficava. Nunca aceitou ter uma faxineira, não havia páreo para ela.

Depois dos filhos já criados, voltou a trabalhar em lojas de confecção, foi vendedora autônoma de joias e seu último emprego foi como telefonista na "Santa Casa de Tietê".

Embora não tenha frequentado escola na infância, desenvolveu grande apreço por leitura e virou frequentadora assídua da "Biblioteca Municipal de Tietê", onde a bibliotecária, Lili, tornou-se sua amiga e separava boas sugestões de livros para ela.
Toda noite, sentada na cabeceira da cama, acendia os abajures do quarto e lia até cair no sono. Assim, foi devorando toda a coleção de livros de romance policial da escritora inglesa Agatha Christie, a dama do crime. No imaginário literário de Odete, o detetive "Hercule Poirot" era um dos personagens preferidos.

Dona Odete era mulher de um refinamento natural e dava grande valor para as coisas boas da vida. Irradiava uma adorável vaidade: cheirosa ao extremo, lançava mão de seu frasco de perfume com borrifador, vestia seu garboso penhoar e iluminava os lábios com batom, mesmo antes de dormir. Também não saía de casa sem laquê. No carro, pedia que mantivessem o vidro fechado, para que o vento não desmanchasse o seu penteado.

Em 2017, ficou viúva e sentia muita saudade do seu Ademir, afinal, foram cinquenta e dois anos de casados, numa leal e amorosa convivência. Sozinha, começou a ter alguns problemas de saúde e foi então convidada a morar com a filha Andrea, o genro Valter e os netos Vinicius e Tomaz, em Santo André.

Muito alegre, de mente arejada, bem-humorada, se divertia com os netos. Uma de suas maiores alegrias foi quando recebeu a notícia de que se tornaria avó. Tinha um excelente relacionamento com o filho solteiro Adriano, eram unidos e confidentes, ela fazia tudo por ele. Sempre cuidou da toda a família com muito carinho. Devota de Nossa Senhora de Fátima, viveu inspirada pela fé, pela esperança e pelo amor.

Odete nasceu em São Pedro (SP) e faleceu em Diadema (SP), aos 79 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha e pelo genro de Odete, Andrea e Valter Massocato. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Bettina Turner, revisado por Renata Nascimento Montanari e moderado por Rayane Urani em 21 de abril de 2021.