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Orlando Walter Zani

1923 - 2020

Engenheiro, pintor, estudioso, divertido, marido de Corina, pai de quatro, avô de onze e bisavô de três.

Esta é uma carta aberta de Vitor Zani Dutra Silva para o seu avô, Walter:

Hoje, dia 29 de maio de 2020, meu avô descansou.

Como muitos artistas importantes que têm deixado este plano ultimamente, o Sr. Walter, com "W", como gostava de brincar, também nos deixou.

A diferença entre as mortes que vemos todos os dias, certamente, se encontra na representatividade daquele que nos deixa... Falo aqui da história e legado construídos, do amor pelo conhecimento e ensino, dos valores humanos praticados e dos sentimentos de afeição e solidariedade deixados.

Tive o grande privilégio de tê-lo como avô e o grande orgulho de poder observar de perto a sua caminhada.

Privilégio e orgulho, estes que naturalmente, também são de seus quatro filhos, outros 10 netos, e três bisnetos... É também da Vovó Corina, que partiu este ano, e que agora, certamente, estará muito feliz em reencontrá-lo, ajudá-lo e amá-lo, como sempre fez.

Apenas observar sua trajetória bastaria e nos inspiraria... Mas por fazer parte de sua família e conviver com você, meu avô querido, jamais me esquecerei:

- dos seus ensinamentos;
- das suas piadas e risadas;
- dos seus poemas e textos filosóficos;
- das suas belas pinturas que viraram quadros lindos de decoração na casa dos familiares;
- das suas histórias de vida... ah, quanta história! Que eu adorava ouvir, e parece que, quanto mais repetida ela fosse, mais ela me alegrava;
- da sua rotina alimentar impecável, nos "enchendo" para sentar à mesa, para comer salada e todos os tipos de legumes;
- da sua salada de frutas, preparada com tanto capricho, com uma farofinha de castanhas, jogada por cima;
- do seu cafezinho da tarde, metódico, após o cochilo sagrado depois do almoço;
- dos seus dias de bom humor e dos seus dias de mau humor;
- por você ter sido triatleta e jogador de futebol amador Ás de Ouros, Clube Atlético Ipiranga, e contar isso inúmeras vezes com muito orgulho;
- da sua paixão por leitura (que admiro muito e me cobro muito por ainda não colocar em prática);
- por você ter sido um grande professor de física, elétrica, mecânica, engenheiro formado pela POLI-USP e doutorado em energia nuclear pelo IPEN-USP;
- por você ter sido o verdadeiro pesquisador e descobridor do "raio laser" de coloração verde, pesquisa e tese defendidos em eletroluminescência de materiais — sendo que, a ideia partiu de pedrinhas no acostamento, que refletiam a luz do farol na estrada, quando você viajava para Itanhaém;
- por você ter sido o idealizador das caçambas de recolhimento de lixo acopladas aos caminhões;
- por você tocar e cantar uma única música no violão "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, uma história pra contar de um mundo tão distante";
- por você cortar e regar a grama da casa e esquecer do mundo;
- por você admirar olhar para o céu, para as estrelas e ler livros complexos de outras dimensões;
- por você comer Bis depois do almoço e fazer bolinhas gigantescas com os papéis amassados;
- pelos seus presépios construídos em todos os natais e que encantava todos;

e, porque não descambar um pouco? Já que ninguém, que esta aqui neste plano, é perfeito:

- por você ter mandado um certo político (o qual já tinha paixão pelo roubo, desde os tempos de faculdade, pagando por roubos de gabaritos de prova) para o lugar que ele deveria ser mandado;

Poderia continuar aqui por horas e horas, lembrando e descrevendo mais e mais sobre você. Você é muito grande vovô, assim como nossa saudade.

Jamais esqueceremos que te amamos e que você faz parte de nossas histórias.

Sinta o nosso amor, os nossos abraços e os nossos beijos.

Esteja em paz!

Orlando nasceu em São Paulo (SP) e faleceu em São Paulo (SP), aos 96 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo neto de Orlando, Vitor Zani Dutra Silva. Este tributo foi apurado por Matheus Xavier, editado por Lígia Franzin, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 26 de junho de 2020.