Sobre o Inumeráveis

Osvaldo Brito

1948 - 2020

Índio benzia a quem precisasse, usando o rosário, as ervas, simplicidade e sabedoria.

É Beatriz quem deixa esta homenagem para Osvaldo, o Índio, a quem ela considerava como um pai.

“Eu sou... podemos dizer filha, né... dele. Filha não só espiritual, mas na matéria também, porque mesmo não tendo ligação consanguínea vivemos muito unidos. Sou filha de coração. Ele morava em Guarulhos e eu na Penha; apesar da distância, eu ia vê-lo praticamente todo dia.

Índio era a forma como o chamávamos. Tinha mesmo cara de índio e dizia haver indígenas na sua ancestralidade. Benzedor, tinha esse dom espiritual desde menino. Eu o conheci quando ainda era criança, eu tinha uns sete anos e ele era o benzedeiro da minha avó. Fui crescendo e me conectando com a espiritualidade e assim me aproximando cada vez mais dele.

Se a gente falar na palavra caridade, logo vem ele na cabeça. Porque estava sempre querendo ajudar as pessoas de forma espiritual e física também. Atendia muitas pessoas, de vários lugares, num pequeno cômodo no quintal da casa. O celular dele não parava de tocar. De coração aberto, trabalhava muito. Dizia: ‘Fia, eu tenho que ajudar as pessoas, elas tão procurando por mim’.

Tirava dos atendimentos o seu sustento, mas sem negar acolhida a ninguém, mesmo a quem nada podia pagar: ‘Fia, pode entrar mesmo assim’. Essa foi sua atitude por mais de cinquenta anos, cuidando e zelando pelas pessoas. Trabalhava com o rosário na mão. Era católico, devoto de Cosme e Damião. Suas gavetas eram cheias de simpatias para as crianças.

Amava uma cerveja! Por mais que nos dissesse que não devíamos beber, ele mesmo dava um jeito de tomar! Mas, infelizmente, no seu último ano de vida ele não tomou; falávamos que quando tudo isso passasse íamos comemorar.

Bastante reservado, não falava mal de ninguém, não falava alto, não brigava. As pessoas se consideravam filhas dele. Não fazia diferença entre ninguém, tratava todos da mesma forma. Deixou um filho biológico, Osvaldo Franco Brito, e mais de 40 filhos de santo que hoje choram muito com a falta dele.

Não só tinha os traços físicos de indígena, mas trabalhava de fato com uma entidade que era um índio. Sabia usar muito bem as ervas, tinha receita medicinal pra tudo, fazendo uma alquimia curadora que misturava o poder das ervas com sua sabedoria e amor. Sempre calmo e sereno disse: ‘Fia vai lá no quartinho e coloca refrigerante pras criança’, quando estava indo pro hospital.

Quando ficou doente, eu me tornei praticamente cuidadora dele, porque tenho alguma experiência em enfermagem. E no último dia em que o vi, quando fui deixá-lo no hospital, ele ficou quietinho ali, juntou as mãos como se estivesse rezando. Aí eu falei: ‘O que foi?’ E da forma que ele sempre falava, respondeu: ‘Tô correndo gira. É fia... tem muita gente precisando de mim...’.

Então, até na dor ele estava ajudando as pessoas. Perguntei se ele queria que eu fizesse alguma coisa por ele: ‘Não fia, só muita reza’. O mais importante da vida dele era isso: rezar, rezar, rezar. Ele sempre falava pra gente assim: ‘Fia, tem que ter fé em Deus. A gente não pode deixar assim se abater pelas coisas que a vida traz, tem que ter fé em Deus, vai dar certo. Tudo vai dar certo. E a gente tem que fazer o bem sem olhar a quem’. E hoje é isso que a gente leva na cabeça”.

Osvaldo nasceu em Taubaté (SP) e faleceu em Guarulhos (SP), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha espiritual e amiga de Osvaldo, Beatriz Nascimento. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Bettina Turner, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 13 de outubro de 2021.