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Pedro Luiz Portugal

1962 - 2020

Errar é humano, mas continuar gostando depois de tantos erros, só pode ser amor.

BANDEIRA DOIS

Hoje o dia amanheceu lindo. Um dia clássico no subúrbio carioca. Você levantaria às cinco horas da manhã para cuidar do trinca-ferro que, ilegalmente, insistia em manter, com carinho, em cativeiro. Depois, lavaria o carro. Afinal, onde já se viu um táxi sujo? ”Isso depõe contra a classe”, diria com certeza. Nós, pediríamos carona para o centro. E, sarcasticamente, você perguntaria ”Bandeira dois?”

Durante o dia, arrumaria confusão no ponto, carregaria, mentirosamente, umas cinco celebridades, recusaria corrida para perto, fecharia um passeio com um grupo de gringos, seria o melhor guia turístico do Rio falando apenas ”fifity“ e, no fim, teria feito amizade com clientes que apareceriam lá em casa depois.

Você nunca tentou acertar. Educou pelo erro. Mostrou o que é ser um sujeito íntegro pelo caminho mais difícil. Um herói alcançável. O marido imperfeito mais conquistador. O irmão mais sacana. O tio mais aventureiro. O melhor descascador de laranjas. O pai todo errado para um garoto todo errado. Vai ver isso explica o amor.

Nós não pretendíamos te perder tão cedo. Agora, se era para ser derrotado, tinha mesmo que ser para algo gigante: a pandemia de um vírus cruel. Oito dias de respirador. Oito dias sem te ver. Oito dias de coragem. Nos deu esperança a cada minuto. Tinha que ser. Eu não esperava menos do meu taxista valentão.

Já está fazendo falta na praça, mas aproveita que é bandeira dois. Te amo. Para sempre.

Do seu filho, Pedro Portugal.

Pedro nasceu no Rio de Janeiro e faleceu no Rio de Janeiro, aos 58 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Rayane Urani, a partir do testemunho enviado por filho Pedro Henrique Ferreira Portugal, em 1 de maio de 2020.