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Raimunda de Brito Mendes

1943 - 2020

Todos encontravam no sorriso de Tia Raimundinha a doçura do seu doce de banana.

Raimunda foi uma existência tão grande que se faz presente mesmo ausente. Afinal, foram tantos os que buscaram nela um porto seguro para uma confidência ou um desabafo... ou mesmo para um lanchinho que fosse!

Raimundinha (também Dinda ou Rai) não negava uma escuta. Afinal, logo cedo ela aprendeu isso de se entregar ao outro. Como filha mais velha, sempre teve o compromisso de ajudar, sobretudo os irmãos que vieram em seguida: Socorro, José, João, Antônio, Gorete, Rosalba, Risalva e Lourdes.

Desde criança, foi posta aos desafios da vida real. Não existiu a lente dos contos de fadas para a pequena Rai. Apenas a vida: nua e crua. Por isso, cresceu forte. Corajosa para enfrentar a adolescência em plena ditadura militar. Não teve medo e nem se furtou ao engajamento. Junto ao JOC (Juventude Operária Católica) e ao ACO (Ação Católica Operária) encontrou refúgio e se fortaleceu junto a uma rede que também buscava condições de trabalho e de vida mais justas.

Como militante, operária e cristã, foi no chão de fábrica que conheceu seu companheiro de luta e de vida. Das coincidências que não se explicam, o coração de Rai foi bater mais forte justo por aquele que dividia o mesmo apelido que ela. Assim ficaram conhecidos Raimunda e Raimundo: o casal Rai e Rai.

Junto a Raimundo, pariu Marcos, Ana Maria e Marcio. Como mãe, não economizou nas palavras. “Lembro-me dela apontando para nossa mesa de jantar e dizendo: ‘Se eu pegar essa mesa sozinha, ela é pesada. Mas se cada um pegar comigo, fica leve para todos’. Ela usava essa fala para tudo!”, conta Ana Maria, que também destaca a forma como Raimundinha se dedicou à criação dos filhos: “Não tinha distinção de gênero. Todos faziam de tudo e isso também incluía meu pai. Ela ensinou a importância de ser uma mulher independente, de ter voz e estar preparada para as oportunidades da vida.”

Assim, também incentivou os filhos a participarem dos grupos da igreja São Judas Tadeu, do bairro Vila Pery, em Fortaleza. Como agregadora nata, as reuniões e festas dos jovens sempre eram acolhidas por Raimunda. Impossível não se sentir à vontade na casa da Tia Raimundinha. “Uma hora, percebemos que não era por nós, os filhos, que colegas e amigos iam pra nossa casa; e sim, por causa dos nossos pais. Eram momentos de confidências, partilhas, ajudas, discussões ou, simplesmente, para um lanchinho...”, orgulha-se Ana.

Aos privilegiados de terem encontrado em Raimundinha uma escuta ativa e recebido um conselho sábio, não passaram ilesos do seu parecer final: “A vida só é dura pra quem é mole!” Também privilegiados foram os que provaram da sua comida. E era no domingo de Páscoa que Raimundinha mais caprichava: seu famoso Peixe à Delícia e pão de coco só podiam ser atacados depois da oração e da famosa “troca do jejum” entre as famílias. Mas era o doce de banana a sua marca registrada. De um vermelho quase vinho, denso, com calda grossa e rodelas de banana bem-definidas, era o orgulho de Rai, que dizia "fazer tudo natural e sem corante". “Todos encontravam no seu sorriso a doçura do seu doce de banana”, resume Ana Maria.

A partir de agora, é Raimundo quem seguirá com a tradição do doce de banana. Os jovens que frequentavam a casa de Raimundinha são como irmãos para Marcos, Ana e Marcio. Os netos, Maria Clara e Antonio, ficam com a lembrança inspiradora da mulher forte, corajosa e acolhedora que foi a avó. Raimundinha segue, portanto, viva nas existências, que ganharam além de conselho, escuta e companhia, sua maior demonstração de carinho: um cheiro e um abraço bem apertado. E sempre, sempre: uma colherada cheia do seu doce de banana.

Raimunda nasceu em Iguatu (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 77 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelos filhos de Raimunda, Ana Maria Brito Mendes e Marcio Wilter Brito Mendes. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Carolina Margiotte Grohmann, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 16 de outubro de 2020.