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Raimundo Osmundo Barbosa

1946 - 2020

Sempre foi um benzedor, um curador de almas perseguidas pelo incompreensível. Aliviava tormentos e dores.

Raimundo, nascido no sertão nordestino no dia do trabalho em 1946. Fugiu da seca e da fome ainda criança. Ao seu lado, os pais, irmãos, muita poeira e incertezas pelo caminho. Cresceu em Castanhal do Pará, nas colônias e plantações. Conheceu aquela que seria sua esposa e mãe de 12 dos 15 filhos que teve. No entanto, a vida desse retirante ainda daria muitas voltas.

Bateu asas do Pará e fixou morada em Amapá. Casou novamente e teve mais três filhos. Em Macapá, dedicou-se à construção de moradias e, com o tempo, tornou-se o que sempre foi, um benzedor, um curador de almas adoecidas, sofridas e perseguidas pelo incompreensível, pelo desconhecido. Curou quebrantos, maus-olhados, espíritos ruins e encostos. Pessoas de lugares distantes o procuravam para aliviar tormentos, inquietações e dores.

Homem plantador, contador de histórias, caminhoneiro, cantor e admirador das coisas do seu nordeste. Em sua casa tinha sempre uma garrafa de café quentinho, um mingau de jerimum, uma música, uma história. Quem vinha da rua, das festas, da vizinhança, de todo lugar, em qualquer horário, encontrava abrigo, conforto e atenção no seu Ceará, como era conhecido.

"Ele saiu de casa para o hospital se despedindo, dando tchau a todos pelo caminho, alegre como sempre foi. No hospital, comia com vontade e cantava as enfermeiras chamando-as de bonecas", conta Ana Maria, sua filha, que prossegue: "Mal sabíamos que não o veríamos novamente. O passe foi dado ali mesmo, roguei aos guias para acompanhá-lo e benzê-lo. Eles foram a sua companhia e foi, na presença deles, que ele trocou de morada."

Ela conclui dizendo que havia muitas pessoas em oração e esperando retorno de Raimundo, que se foi "como passarinho, quietinho, com os olhinhos já fechados". Os que ficam — filhos, parentes e amigos — são gratos "pelo que o seu Ceará foi, fez e ensinou".

"Pai, até que o dia do nosso reencontro chegue, que os seres mágicos da vida e do universo cuidem de você, e que sua energia, seus guias, seus caboclos e suas entidades ajudem a curar as pessoas no mundo. Benza-nos aí de cima; a Terra e a humanidade necessitam de suas orações", reza a filha, ouvindo ao longe a melodia que o pai tanto gostava: "Acorda, Maria Bonita / Levanta vai fazer o café / Que o dia já vem raiando / E a polícia já está de pé..."

Raimundo nasceu em Quixeramobim (CE) e faleceu em Macapá (AP), aos 74 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Raimundo, Ana Maria Vidal Barbosa. Este tributo foi apurado por Thyago Soares, editado por Júlia de Lima, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 1 de setembro de 2020.