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Rejane Ramos Santos

1974 - 2020

O bolo de cenoura e o café com leite, comprados para a filha na rodoviária, nunca serão esquecidos.

Rejane tinha um coração do tamanho do mundo. Segundo a filha, Maria Talita, sua mãe era a pessoa mais bondosa que ela já conheceu e não se deixava abalar diante das dificuldades (nem mesmo com a esquizofrenia, enfermidade que a acompanhou desde os 20 anos, e que foi a responsável por algumas sequelas). Ainda maior que o coração, era a vontade de celebrar a vida. “Aniversários? Ela amava!”, conta Talita. “Não podia saber de um que já ficava na ansiedade. Doces, salgadinhos... eram com ela mesma! Amava ver as lives, dançar. Nunca teve vergonha de nada”, relembra.

Foi na cidade de Tobias Barreto, no interior de Sergipe, que Rejane viveu durante toda a sua vida e foi lá que teve seus dois filhos, Talita e Mateus. Neste tempo, as pequenas obrigações do dia a dia, como ir ao médico ou atender a um cliente na loja em que trabalhava, sempre lhe trouxeram alegria. Mas, o que ela realmente gostava de fazer era passear pela cidade: “Sempre ia à rodoviária comprar bolo de cenoura e café com leite para mim. Sempre”, conta a filha. Um de seus desejos, inclusive, era começar a fazer caminhadas na região dos lagos do município e não mediu esforços para alcançar esse objetivo. “Comprou calças, garrafa de água... Infelizmente, não deu tempo dela realizar esse desejo”, lamentou Talita.

Apesar da tristeza pela partida da mãe, a lição de alegria perante a vida é uma das coisas que a jovem considera que Rejane deixou como herança. “Acredito que o maior ensinamento que minha mãe deixou foi que 'viver é bom'. Ela viveu muito feliz. Mesmo com a dificuldade da doença que não tem cura, ela foi muito feliz. Namorou, viajou, teve a mim e ao meu irmão, sorriu, dançou, conheceu muita gente e descansou”, finaliza.

Rejane nasceu em Tobias Barreto (SE) e faleceu em Lagarto (SE), aos 45 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Rejane, Maria Talita Ramos Santos Melo. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Malu Costa de Araújo, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 1 de setembro de 2020.