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Rita Ferreira da Silva

1944 - 2021

Benzedeira valorosa que curava com a sua fé os males do corpo e da alma.

Dona Rita viveu cercada do amor dos filhos, netos e bisnetos. Multiplicou seu amor e foi o pilar da família. Todos gostavam de estar perto dela. Para alguns netos, ela foi mãe duas vezes. Gabriela conta que continuou a morar com a avó quando a mãe se casou pela segunda vez. Ela viveu com Rita até os 23 anos, o irmão até os 18 e um primo até os 19. "Minha avó foi minha principal referência de mulher, mãe e avó", conta. Era Rita quem pajeava a filha de Gabriela para a neta ir trabalhar.

Recebeu o dom da benzeção. Enquanto benzeu, todos os dias tinha gente em sua casa em busca de melhora para dores na coluna, de cabeça e outros males, alguns no espírito. Parou quando a idade pesou, mas ela conservou a bondade até o último dia.

Amava ficar com a família. Só não gostava muito de festa. Mesmo assim, nos últimos anos começou a participar dos eventos festivos, o que rendeu lindas memórias para a grande e unida família que constituiu.

Quem a via, mal imaginava que Rita viera de uma numerosa família que desde cedo lutava contra os dissabores da seca no Nordeste. Ela, os cinco irmãos e os pais mudavam-se à medida que a fome apertava. Aos 7 anos já acompanhava o pai no trabalho. Plantavam e colhiam mandioca. Apesar de tudo que a vida lhe exigia, Rita falava que fora feliz nesse tempo, embora muitas histórias que contasse fossem tristes. Havia, no entanto, aqueles casos que arrancavam risadas de quem ouvia.

A mãe só permitia que ela saísse para ir à missa e cantar no coral da igreja. Como sempre foi dona de si, Rita fugia para ir às festinhas que desejava.

Contava ter visto vários irmãos morrerem ainda na barriga e outros partirem novinhos. Ela e a família moravam longe dos médicos, por isso as crianças morriam em casa, sem atendimento. Depois de maiorzinha, a menina foi trabalhar na casa de uma madrinha fazendeira. Devido à doença da mãe, o pai não conseguiu buscá-la. Mas ela retornou um tempo depois. A casa foi se esvaziando com o casamento dos irmãos. Por fim, restaram ela e a irmã mais nova com os pais. Para eles, Rita continuaria ali, pois eram contra o casamento dela com o namorado. Como na infância, Rita fugiu para dizer sim ao futuro pai dos filhos. Dessa vez, foi para mais longe, São Paulo, onde morou boa parte de sua vida.

Na maior cidade do país, as coisas não foram fáceis. Teve seis filhos. Quando a caçula contava com 7 anos e o mais velho com 14, o marido teve problemas com alcoolismo e abandonou a família. Dona Rita era analfabeta, e, de acordo com a neta, por isso não conseguia trabalho. Dessa forma, alguns filhos começaram a trabalhar ainda na infância. A família se uniu, Rita recorria a associações para conseguir sustentar as crianças. Com o tempo, as coisas melhoraram, mas continuaram difíceis.

"Conseguimos reformar a casa que meu avô deixou, era bem ruim, chovia dentro. Nosso maior desejo era comprar um lugar maior, do jeito que ela merecia", conta Gabriela.

A mulher que fugiu para se casar também recebeu o perdão dos pais e pôde conviver com eles até o fim. Viajava muito para o Nordeste, especialmente para cuidar da mãe e depois do pai. Até certo ponto, Gabriela, a neta, ia junto com a avó. Do pai, Rita herdou uma imagem de Santo Antônio, de quem era devota. A imagem devia ter cerca de 100 anos e fazia parte de seus rituais de fé, junto ao terço que sempre rezava.

Preferia comprar frango inteiro e até vivo para cortá-lo a seu modo. E, de tudo que fazia na cozinha, o café era o mais marcante. Ninguém saía da casa de Dona Rita sem saborear um cafezinho.

Ela era a sustentação da família, e ela continuará se apoiando no seu amor. "Todo mundo deveria ter conhecido minha avó, ela era o amor ágape encarnado", finaliza a neta Gabriela.

Rita nasceu em Palmeira dos Índios (AL) e faleceu em São Paulo (SP), aos 76 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta/filha de Rita, Gabriela dos Santos Souza. Este tributo foi apurado por , editado por , revisado por Fernanda Ravagnani e moderado por Rayane Urani em 21 de novembro de 2021.