Sobre o Inumeráveis

Ronaldo Candido de Melo

1950 - 2020

Tinha cabelos que pareciam feitos de algodão, um coração gigante e um sorriso que iluminava tudo.

Senhor Ronaldo era um pai muito amado que sempre atendia ao telefone dizendo "Oi, filha!", e assim por poucos minutos eram tratados os assuntos diários; eram conversas amorosas de pai e filha. Sempre ao final da tarde... sem falhar!

Sistemático, bravo e com um coração gigante. "No dia do meu casamento me disse: 'Hoje eu estou feliz, mas depois vou ficar triste', e assim se desenrolava nossa relação."

Um pai carinhoso e rígido. Um avô brincalhão. Um sogro de poucas palavras e muita graça. "Nossa ligação transcendia tudo. Com um olhar eu entendia tudo o que ele queria dizer, talvez por ser a caçula de mais três irmãos. Com minhas irmãs ele era mais sério. Com meu irmão, amava uma farra, e eu, a mais novinha, era quem botava ordem no pedaço."

"Amava comer um churrasco, uma carne gorda e tomar uma pinguinha. Gostava das visitas, mas, quando cansava, logo dizia que a gente podia ir embora. Apesar de às vezes ficar brava com as aparentes ignorâncias, já sabia que assim era seu jeitinho."

Senhor Ronaldo nunca poupou esforços para agradar e ajudar. Muitas vezes que ele chegava em casa dizendo que tinha que ir a algum lugar para pagar conta porque havia comprado algo para um amigo que estava precisando.

Da mesma maneira que tinha um coração bom, também era muito correto e não aceitava que os filhos fizessem nada de errado. Era daqueles pais bravos, que exigem o máximo. Sempre foi muito trabalhador. Não faltava ao trabalho por nada.

Tinha um sorrisão tão lindo e um cabelo tão macio que parecia um algodão. As netinhas adoravam acarinhar aquele cabelinho (e ele adorava receber esse carinho).

Apaixonado pela esposa, sofreu calado quando ela se foi, há cinco anos. Nunca reclamou ou se lamentou. Fez-se de forte o tempo todo. Ele e Eloise cuidavam um do outro, já que naquela época ela era a única filha solteira em casa. O dia de sair de casa e deixá-lo sozinho foi muito difícil. Mas, a filha amorosa seguiu cuidando dele, como todo desvelo.

"Parecia até que havíamos invertido o papel: eu era a mãe dele. Ajudava em tudo que era necessário, e, quando ele começou a se virar sozinho, foi como se eu estivesse com o ninho vazio. Mas eu entendi: era amor demais, era cuidado demais. Ele não queria me sobrecarregar. Mas quem disse que aquilo era muito para mim? Cuidar dele era retribuir tudo que ele fez por mim a vida toda. Eu era o 'pé de boi dele'. Assim ele dizia para as pessoas."

"Ronaldo, também conhecido como Farol. Assim ficará para sempre em nossas lembranças. Nas minhas. Nas dos meus irmãos. Nas lembranças dos netos, netas e bisnetos. Infelizmente ele se foi antes de conhecer meus filhos, e isso dói, machuca a alma. Mas, com certeza, a memória dele estará sempre viva."

Senhor Ronaldo mal apresentou sintomas. Sentia mal-estar e estava com tosse. Na primeira consulta, nada apresentou. Raio-x estava bom. Ao longo da semana, mesmo sabendo dos riscos, todos os filhos iam vê-lo, e nada de um sintoma novo.

No entanto, o quadro se agravou rapidamente e ele partiu. "Eu disse para ele quando eu o encontrei: 'Eu estou com você, pai. Vai ficar tudo bem!', e para ele realmente ficou. Acredito que ele foi ao encontro do grande amor da sua vida. Cinco anos e quatorze dias após a partida da minha querida mãe, entreguei nas mãos de Deus a vida do meu pai. Ele não é só um número no meio dessa pandemia."

Ele era um homem honesto, correto, justo, de coração gigante. Ele era pai de quatro filhos: Cláudia, a mais velha, Adriana e Weliton, os filhos do meio, e Eloise, a caçula. Ele era avó do Maycon, Júlia, Alice, Juninho, Geovana, João Victor, Pedro, Lucas, Mariana e bisavô do Mitchel e do Samuel. Sogro do Daniel, Daniela, Ricardo e Wanderson.

"Ele era um homem incrível a quem podíamos chamar - e sempre chamaremos - de pai, cheios de orgulho. Sei que ele está em lugar bom, onde não há dor nem tristeza. Sei que ele está olhando por mim e por todos que aqui deixou. Sei que um dia vamos nos encontrar!"

Ronaldo nasceu em Igarapé (MG) e faleceu em Igarapé (MG), aos 69 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Ronaldo, Eloise Mariana de Melo Bragioni. Este tributo foi apurado por Lila Gmeiner, editado por Ana Macarini, revisado por Otacílio Nunes e moderado por Rayane Urani em 27 de novembro de 2020.