Sobre o Inumeráveis

Rosa Maria dos Santos Nascimento

1956 - 2020

O colo de Rosa era o pico do Everest que toda criança queria escalar.

Não havia tempestade de inverno que o abraço de Rosa não desse jeito. Mulher negra, guerreira e forte, Rosa tinha a mania de reorganizar afetos e organizar lares. Brincava de lego ao arrumar os porta-malas abarrotados das viagens e encaixava tudo com perfeição, assim como botava na linha rodinhas de bicicletas, brinquedos desenganados e vestidos manchados de vinho.

Ávida jogadora de baralho, Rosa formou aprendizes apaixonados. Para iniciantes, mostrava as regras do “Rouba Monte”. Para os avançados, madrugava nas aulas do “Buraco”.

Disputava cabeça a cabeça com São Longuinho para ver quem encontrava mais objetos pela casa. Até minúsculas tarraxinhas de brincos eram flagradas camufladas no chão. Suas mãos ágeis também davam forma aos mais belos penteados do mundo feitos em casa.

Dirigia fogões ao cozinhar delícias, agulhas ao costurar roupas e corações ao aconselhar jovens desesperadas com términos de namoro. Chegou até escrever em papeizinhos os nomes de oito pretendentes da sua filha de coração. Colocou na panela e esperou com ela para ver qual deles se abriria primeiro e ganharia a corrida do amor.

Sempre levava doces de Cosme e Damião para suas crianças e enchia a casa de alegria com fadas e brinquedos chineses com luzes e muita música. Cuidadora de animais, de bebês, de crianças, de adultos... Um sorriso seu e suas frases sempre repletas de ternura e compreensão conquistaram a todos, como seu marido e companheiro por 20 anos, Edson.

O marido dizia que não era para comprar nada para ele, mas Rosa sempre costumava trazer um presente. Caçula das mulheres entre 14 irmãos, tinha os sobrinhos e filhos deles como filhos e netos. Além de sua “Neguinha” e “Princesa do Nilo”, Clarice, neta de coração.

Rosa nasceu em São Paulo (SP) e faleceu em São Paulo (SP), aos 64 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de criação de Rosa, Cíntia Acayaba. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Josué Seixas, revisado por Didi Ribeiro e moderado por Rayane Urani em 16 de junho de 2020.