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Samir Assi João

1959 - 2020

Da medicina, fez arma e armadura. Da vida, sorveu a arte e a justiça. Só rendeu-se a uma tirania: a do amor!

Os adjetivos heroicos ou doces são dados após terminadas nossas missões.

Samir Assi João recebe o de guerreiro em pari passu com a sua história. A coragem, aquela que evoca o mesmo radical de coração, define-o segundo amigos e família. Afinal, quem tem histórias de se deparar frente a frente com militantes do Hezbollah no Líbano? Conhecer cidades históricas da Síria? Fazer périplos pela Europa? Cruzar, do nordeste do Brasil para a Argentina e Chile de carro? E não uma só vez, mas várias!

Ele encantava-nos com esses "contos verdadeiros de mil e uma noites", para aproveitar o clichê de ser o segundo, de quatro filhos, de pais com ascendência libanesa. E ele sempre unia à pitadas de história, de política e de vida como ela era. Os cafés filosóficos eram animados com suas vivências e, também, com a sua lucidez sobre os momentos do país, muitas vezes ferina ou ainda com uma quase inofensiva ironia.

Foi a medicina que deu a arma e a armadura para que o guerreiro mostrasse as melhores de suas habilidades: a compaixão a quem precisava e a determinação. Egresso do curso de Medicina da UFRN, entrou na residência de Cirurgia, no início dos anos 1990. Os amigos lembram-se dele como o residente interessado, dedicado e eficiente. Naquela época, os pacientes não procuravam os residentes, o que ocorria, era exatamente o inverso. Samir procurava nos ambulatórios, nas enfermarias e até nos outros hospitais em que tinha acesso, aqueles que precisavam de tratamento cirúrgico. Estava sendo moldado ali, o exímio cirurgião, que em seguida, iria se dedicar a passar seus conhecimentos como professor da UFRN e no Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL).

Em 1999, separou-se da primeira esposa com quem teve suas três filhas – Luiza, Mônica e Cláudia. Em 2000, conheceu a também médica Katienne e começou um novo relacionamento que duraria até o fim.

Turrão, de personalidade forte e precisa, jogo duro, uma vez confessou ao amigo e médico Ênio Amico: “Olha, às vezes eu me esforço para brigar com Katienne, mas não consigo! Ela instaurou a ‘ditadura da doçura’ em minha vida.”

Ao lado dela, fez doces viagens por cidades históricas árabes (Líbano era o seu país preferido) e europeias. Dividia com ela a paixão pela arte e pela filosofia. Uma das obrigações era visitar os cemitérios que abrigavam grandes obras de arte ou famosos. Assim, visitou o Cemitério Monumental Staglieno, em Gênova, por duas vezes, para admirar suas famosas esculturas e esteve também diante dos túmulos do filósofo Schopenhauer e de Karl Marx.

Samir estava em uma de suas aventuras de carro pela Argentina, país que visitou 14 vezes, quando saíam as primeiras notícias de que a pandemia já estava em solo brasileiro. Resolveu antecipar a volta e, ao chegar em Natal, retornou às atividades de cirurgião de sobreaviso do Hospital Giselda Trigueiro, referência de infectologia no estado, e como socorrista do SOS Unimed.

Apesar dos apelos dos amigos para que se afastasse do trabalho, optou por enfrentar a peste de frente. Pouco mais de 20 dias depois de completar seus 61 anos de vida, seria internado. Há quem diga que foi a aposta errada pensar em cuidar dos outros como sempre o fizera. Diante da sua história de vida, após ter salvado centenas, quiçá, milhares de vidas, não havia outra aposta a ser feita pelo guerreiro Samir Assi João.

Samir nasceu em Petrópolis (RJ) e faleceu em Natal (RN), aos 61 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela esposa de Samir, Katienne Freire. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Paulo Celestino Filho, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 22 de julho de 2020.