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Wagih Rassi Junior

1975 - 2021

Inspirou alunos e família pela dedicação à sala de aula e pela aprendizagem contínua que sempre buscou.

Formado pela Universidade de Brasília (UnB), Wagih lecionava a disciplina de Einstein quando conheceu Marcela, a aluna sete anos mais nova. "Um dia, eu o vi de longe brincando com alguns alunos e logo pensei: "Hum...quem será aquele que preciso conhecer"? Marcela conta que durante o primeiro semestre não tinha se saído bem em algumas matérias, precisando de reforço escolar: "O Wagih me deu algumas aulas extras junto com outro professor. Foi assim que a gente se aproximou. O primeiro e o segundo beijo fui eu quem dei nele", confessa.

Ético, o professor se preocupava por ter se apaixonado pela aluna. Por isso, logo que engataram o namoro, em novembro do ano 2000, Wagih, então com 24 anos, fez questão de comunicar sua decisão à direção da escola. Os diretores da instituição apoiaram o relacionamento. "Já estava no final do terceiro ano, um ano difícil para mim. Meus pais acharam que eu ia ser reprovada e não pagaram pela festa de formatura. Mas passei direto e Wagih comprou os convites do baile para os meus pais, meus irmãos e para mim. "Você jamais poderia perder a festa da sua escola", ressaltou o docente.

Vocacionado, a sala de aula era uma realização diária para Wagih, um profissional admirado pelos alunos e pelos colegas. "Era o cara engraçado, que contava piada sem graça; amigo fiel; pessoa de bem, que sorria sem mostrar os dentes", lembra a esposa.

Amante do estudo, Wagih tornou-se um mestre renomado na capital federal. Trabalhou em instituições tradicionais como Sigma, grupo SEB, Sagrado Coração de Maria e Ideal. Em seus últimos quatro anos, foi professor e coordenador no colégio Seriös que, nas redes sociais, lhe rendeu uma bonita homenagem: "Wagih era um profissional que revolucionava a sala de aula e a escola. Essas características fizeram dele um gigante. A robustez da lacuna que ficará é proporcional ao espaço que ele conseguiu conquistar por seus méritos, por sua dedicação, por sua busca incansável e o desejo ilimitado de percorrer o caminho mais adequado para acertar nas ideias, nos projetos e nas escolhas que, como ele mesmo dizia, eram sempre com boas intenções".

Caseiro, orgulhava-se de sua família e era alucinado pela esposa e pelos três filhos: Sophie, Benjamin e a caçulinha Angelina. "Wagih não conseguia ver a família dormindo: tratava de acordar todo mundo, fazendo festa, cantando uma música que ele amava", recorda Marcela. O paizão também curtia fazer cosquinha nos filhos e brincar de lutinha com o Ben. Carinhoso e protetor, distribuía abraços e permanecia ao lado, caso um dos filhos tivesse febre durante a madrugada.

Quando não estava dentro da sala de aula, era brincando com os filhos que Wagih mais gostava de ficar. Tirá-lo de casa só se fosse para passear com as crianças no shopping, ir ao Parque da Cidade para andar de patinete ou ao cine Drive-in para assistir aos filmes de dentro do carro, a céu aberto. Costumava fazer Sophie dormir deitado de conchinha com ela e tomou alguns banhos de chuveiro preciosos com Angelina.

Como todo bom candango, vivia entoando Legião Urbana pela casa. E para o filho Benjamin, cantava "Um anjo do céu", da também brasiliense Maskavo. Na "playlist" do professor, ainda rolava o rock dos Engenheiros do Hawaii, mas era superfã dos quatro garotos de Liverpool.

Nos momentos de folga, o professor seguia vídeos sobre tecnologia num site de compartilhamento. Tinha paixão pelas inovações tecnológicas. Passava horas pesquisando sobre computadores e podia ser definido como um legítimo "nerd" formado em Engenharia Mecânica, Física, Matemática e Gastronomia, além de ter dois mestrados em Tecnologia da Informação.

Para Wagih, dedicado pai e professor de Física, o trançado do "challah" - pão judaico indispensável na mesa dos judeus e consumido por sua família durante a a celebração realizada às sextas-feiras, após o pôr-do-sol, o Shabat - era uma equação elucidada de olhos fechados. "Ele fazia a melhor trança judia do mundo", garante a esposa Marcela.

E é preciso fazer justiça às habilidades culinárias de Wagih, pois o "challah" não era sua única especialidade na cozinha. Marcela afirma que a torta de noz-pecã do marido era imbatível. "Desde que moramos em Chicago, aprendemos a celebrar o Thanksgiving Day – Dia de Ação de Graças. Então, todos os anos, fazíamos um jantar e ele preparava essa torta. Comemos a sobremesa pela primeira vez em Nova Iorque, quando fizemos uma viagem para festejar os meus trinta anos", pontua.

Assim, com doçura e cumplicidade, foi elaborada a história de duas décadas de amor entre o casal. "Wagih me incentivou a fazer Medicina. Crescemos juntos, profissional e pessoalmente. Ele me mostrou o prazer da vida na simplicidade. Não precisava de muito, nem do melhor para que ele se sentisse bem. A importância de acompanharmos os avanços da modernidade e de buscarmos continuamente renovar a nós mesmos são lições que nossos filhos e eu jamais esqueceremos".

Wagih nasceu em Goiânia (GO) e faleceu em Brasília (DF), aos 45 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela esposa de Wagih, Marcela Mascarenhas Braga Rassi. Este tributo foi apurado por Andressa Vieira, editado por Luciana Assunção, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 26 de outubro de 2021.