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Zelha Emilia da Costa Pereira

1946 - 2020

Podiam trazer o bolo e a tapioca, mas o melhor café do mundo era o dela.

Zelha era uma mulher de garra, apaixonada pelas duas netas: Rebeca e Isabeli. Estava com uma felicidade imensa no coração, porque tinha acabado de ser avó novamente, tinha agora também o menino Pedro.

“Minha mãe foi minha base, minha essência, tudo que sou hoje. A mulher que me tornei, devo a ela”, contou a filha Janaína.

A vovó Zelha era extremamente apaixonada, “babona, dava a vida pelos três netos, uma superavó”, descreve a filha.

Zelha nasceu na Paraíba, em um pequeno povoado antes chamado Bodocongó, atual município de Boqueirão. Ali, cresceu e se tornou adulta, trabalhando como vendedora em uma loja de confecções. Mas, quis o destino ou a mão de Deus, que precisassem dela em São Paulo, para cuidar de sua irmã que acabara de dar à luz a um bebê. Assim foi feito, e aos 34 anos, foi cuidar do resguardo de sua irmã Zenilda, que era da congregação Assembleia de Deus. Nessa congregação, havia um certo pastor, viúvo, que organizava congressos, onde ia acompanhar sua irmã Zenilda.

Zelha contava para Janaína que, logo que entrou no ginásio, o pastor bateu os olhos nela e veio quase imediatamente falar com ela; três meses depois, os dois já estavam casados. Deste casamento com o Pastor Claudionor, de quem Zelha ficou viúva após 27 anos, em 2008, nasceu a única filha, Janaína. "Desde que ficou viúva, minha mãe passou a morar comigo”, contou.

Janaína comentou ainda que Zelha e o genro André se davam muito bem e que muitas vezes ouviu a mãe dizer: “Dé, você é o filho que Deus não me deu na barriga, mas deu, pra cuidar da minha filha quando eu não estiver mais aqui. Posso morrer tranquila”. E André dizia sorrindo: “A senhora vai viver 100 anos, dona Zelha”.

Era uma mulher de oração, que exalava alegria e meiguice por onde andava, cheia de fé em Deus. A relação dela com a família era muito boa. Era a irmã do meio, de quatro irmãos. Gostava de contar sobre a vida dela, de como era a vida na Paraíba... Adorava fazer café. “Seu café era o melhor do mundo”, relembra Janaína. A filha ressaltou também que, sua mãe “não gostava de cozinhar (...) meu pai era mineiro, então era ele que cozinhava e muito bem. Minha mãe era a mulher do exemplo, do conselho na hora certa e do sorriso quando menos se esperava”. Zelha era perfeccionista com os cuidados da casa, passava roupas muito bem e gostava de manter a casa sempre brilhante e cheirosa.

A filha nos contou que Zelha tinha orgulho de suas origens e sempre que podia, ia até sua terra. Era baixinha, sedentária, só gostava de andar com a filha e com as netas, vivia com a Bíblia na mão, cuidava bem dos dentes, cortava as unhas curtinhas. Não era do tipo muito vaidosa, mas um pouco de maquiagem ela aceitava, sobretudo, quando eram as netas que faziam a maquiagem. O batom tinha que ser passado pela neta. A vovó era presença garantida nas festinhas da escola das netas, para no final, garantir o abraço mais gostoso do mundo. As netas diziam sempre que o “bom da vovó é que a gente faz o que quer com ela”, contou Janaína. Então, a vovó Zelha era a companhia perfeita para ir ao shopping.

Janaína diz que se sente roubada: “Nós fomos roubados. Minha mãe foi arrancada de nós por essa doença horrível, que parece estar lavando a terra. O que me conforta, é a certeza de que ela está ao lado de Jesus, ela orava por todos, até por quem ela não conhecia. Era muito amada na igreja, porque era conselheira e amiga”. Zelha se despediu da filha e do genro, que também tiveram coronavírus, com um “Eu te amo!”

Janaína contou que antes de ir para o hospital, sua mãe confidenciou a ela: "Filha, estou com medo de morrer e deixar vocês”.

Zelha nasceu na Paraíba e faleceu em São Paulo, aos 73 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Zelha, Janaína da Costa Pereira Soares. Este tributo foi apurado por Viviane França, editado por Sandra Maia, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 15 de julho de 2020.