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José Carlos da Silva

1944 - 2020

Nutria um amor especial pelos bichos do seu sítio, tanto que sua melhor amiga tinha quatro patas.

Seu José tinha um sorriso largo, e as mãos calejadas. Amava seu cafezinho com pão com queijo. Tinha uma alegria própria, que brilhava todos os dias, iluminando quem estivesse por perto. Ajudava os outros com prazer, simplesmente por ser um homem bom.

Seu José era um agricultor apaixonado pelo sítio no qual trabalhou por vinte anos. Sua história com o sítio começou quando ele era um sem-terra e fazia parte do Movimento. Depois de ocupar algumas terras com outros agricultores conseguiu que o Incra lhes concedesse o direito de morar no assentamento. Assim, conseguiu cultivar cana de açúcar e vender para a usina nos finais de ano.

Além disso também pôde criar animais e tratar dos bichos. Quando chegou por lá, precisou dormir no chão, em cima de uma lona. Não havia casa, luz elétrica ou encanamento. Após sofrer com invasões e roubos no local, batalhou muito para erguer sua casa definitivamente ali.

Seu José foi imensamente feliz nesse sítio. Gostava da natureza, da terra, do puro. Nutria um amor especial pelos animais, tanto que sua grande companheira Rita era uma vira-lata preta, inteligente, que latia forte e o seguia nas aventuras. Ele a encontrara na rua, andando sem rumo, magrinha e com fome, e foi ali que seu coração se encheu de amor por ela. Rita dormia na rede de seu dono, e não saía de lá por nada. Protetora que só, todo fim de tarde esperava por ele no portão.

A filha de Seu José, Esther, o descreve como uma extensão de sua própria natureza. Tiveram uma relação muito boa de pai e filha, conversavam longamente por telefone aos fins de semana, sobre a vida um do outro e principalmente sobre o sítio do Seu José.

Papeavam sobre os animais, os patos que nasciam e os cachorros que eram abandonados perto do sítio e acabavam ficando lá mesmo, as galinhas e as cabras, a preguiça que seu José resgatou e ajudou, ou sobre a cadela preferida, a Rita.

A melhor história de Seu José, conta Esther, é da noite em que ele achou que ladrões estavam invadindo o sítio. “Foi uma ligação fora do habitual, muito cedinho. Quando atendi, ele explicou que tinha chovido muito na noite anterior e acordou com sons de passos. Pensou que estivessem rodeando a casa. Com medo, acendeu a luz do quintal e abriu uma brecha da janela. Foi aí que deu de cara com ela. Uma vaca grandona olhando de volta para ele! Meu pai deu um berro de susto. Ele não tinha medo de nada, era um valentão, mas a vaquinha o enganou direitinho”, conta ela dando risada. “No outro dia um vizinho foi buscar a bichinha, que tinha escapado de noite.” Depois do susto, um amigo de Seu José passou a morar com ele no sítio, e se transformou no caseiro de lá, cuidando também da Rita.

Outra das lembranças favoritas de Esther foi o primeiro e último Ano Novo que passaram juntos. Seu José não era casado com a mãe de sua filha. A primeira virada de ano que passaram juntos foi a de 2017 para 2018. Esther foi para o sítio com o esposo e com a mãe e todos eles passaram a noite jogando dominó, aguardando pela ceia. Seu José, que nunca aguardava acordado a virada do ano, conseguiu esperar. Esforçou-se, comprando até pisca-pisca, para transformar aquele Réveillon no melhor que a filha já passara, e conseguiu.

Esther sempre vai se lembrar do pai daquele jeito brincalhão, contador de piadas, e bondoso acima de qualquer coisa. Por mais longo que este tributo pudesse ser, nele não caberiam todo o amor e admiração que essa filha tem pelo pai. De onde quer que esteja, o sorriso largo de Seu José nunca sairá da memória daqueles que o amam, e que dele recordam com carinho.

José nasceu em Vitória de Santo Antão (PE) e faleceu em Jaboatão (PE), aos 75 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de José, Esther Suellen Borges da Silva. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Letícia Virgínia da Silva, revisado por Fernanda Ravagnani e moderado por Rayane Urani em 9 de agosto de 2021.