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Rita José de Oliveira

1933 - 2020

Dizia que as melhores coisas da vida eram: primeiro Jesus, depois o celular para poder falar com o povo todo.

Rita era uma mulher sorridente que cativava todos com seu carisma e sua graça ao aparecer todas as tardes na varanda, sem faltar um dia sequer ao compromisso social mantido há anos. Vizinhos, amigos e familiares agora sentem demais a falta da alegria dessa pessoa, nesses encontros simples da vida, esses pequenos momentos que fazem tudo valer a pena. Os mais chegados a chamavam de Zizi, apelido carinhoso dado a essa pernambucana de riso autêntico, que fazia questão de cumprimentar todo mundo que passasse em sua calçada, fosse criança, jovem ou idoso.

Patrícia era neta de Rita, que era mãe biológica de Patrícia. Mas a neta criou o costume de chamar a avó de mãe também. Em seu coração, que era de criança, virou de mocinha e chegou à idade adulta, para Patrícia “Minha avó é mãe, sim senhor! E, pronto acabou!”. Rita era dessas mulheres incríveis que ocupam espaços afetivos na vida das pessoas. Porque era verdadeira, porque seu jeito gracioso e sua autenticidade encantavam.

Rita criou seus sete filhos biológicos e mais sete netos, como se tivessem também saído de seu ventre. Ficou viúva ainda moça. Era, também, uma das últimas sobreviventes de sua geração, seus irmãos e familiares mais próximos já foram todos morar na casa de Deus.

Nasceu em uma época que nem eletricidade havia! Imagine então a alegria que sentiu quando recebeu de presente da neta um celular novinho em folha. Parecia uma criança quando ganha um brinquedo novo. O dia inteiro ela ficava perguntando aos filhos e netos se o celular estava mesmo ligado e carregado, cismada por que ninguém ainda tinha ligado para ela. Quando não era isso, era ela que queria ligar para os parentes, dizia assim “Liga aí minha filha, que quero falar com fulano!”; e se os netos ou filhos respondessem com um “Já ligo, mãe!” ou “Já ligo, vó!”, ficava zangada que só vendo! Tinha que ser atendida imediatamente.

Não era de falar muito — nem precisava —, pois sua presença mágica era como o brilho de uma estrela que passou a vida toda a iluminar os dias daqueles que tiveram o privilégio de conhecê-la, de serem amados por ela e de amá-la. Rita não agasalhava mágoas ou tristezas entre seus braços generosos. Ali só havia amor, solidariedade e acolhimento. Era um colo em forma de mulher.

A saudade de Patrícia é tanta e seu desejo de perpetuar o amor construído entre as duas é tão imensurável, que a neta fez um poema para homenagear essa pessoa encantadora que só lhe ofereceu lições de generosidade e sabedoria. Foi a matriarca da família, não por autoritarismo, mas porque para todos que Rita criou e educou, será para sempre o alicerce, a estrela-guia e o amor eterno em cada coração.

“In Memorian

Se eu soubesse que tão cedo partirias, teria te amado mais.
Se eu soubesse que tão cedo partirias, teria aproveitado cada milésimo de segundo ao teu lado.
Teria te contado as melhores histórias de amor.
Teria acariciado delicadamente a tua face angelical.
Se eu soubesse que tão cedo partirias, teria segurado demoradamente tua mão pequena e delicada.
Teria deitado no teu colo macio e contemplado o teu doce sorriso.
Se eu soubesse que tão cedo partirias, teria preenchido teu tempo com as mais belas das poesias.
Teria tocado Beethoven, Strauss, Wagner ou qualquer outro gênio musical, só para que pudesses flutuar nas notas da melodia.
Se eu soubesse que tão cedo partirias, teria te dado as estrelas do céu, as águas do oceano, as flores do campo, até o firmamento.
Se eu soubesse que tão cedo partirias, teria te amado infinitamente mais.”

Patrícia Lima

Rita nasceu em Aliança (PE) e faleceu em Aliança (PE), aos 87 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta de Rita, Patrícia Geórgia Cardoso Barreto de Lima. Este tributo foi apurado por Ana Macarini, editado por Ana Macarini, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 9 de junho de 2020.