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Adeilson José Marinho da Silva

1980 - 2020

Alegre e trabalhador. Adorava um churrasquinho e não perdia a oportunidade de dançar.

Dedel era justo, perfeccionista, batalhador, tranquilo e de coração nobre. As maiores preocupações de sua vida eram, em primeiro lugar, sua família e, depois, sua empresa de transportes (ônibus e caminhão). Era muito comum acordar antes do sol nascer para resolver qualquer imprevisto que aparecesse na empresa. Era daí que ele tirava o sustento da família.

Muito inteligente, ele se esforçava ao máximo para as coisas saírem perfeitas e fazia tudo com as próprias mãos. “Meu irmão era apaixonado por seus carros. Um dia de volta pra casa, depois de uma longa viagem que durou seis meses, Dedel desmontou toda a cabine do seu caminhão e, com a paciência que só ele tinha, limpou peça por peça até a última – isso levou o dia inteiro – até deixar o carro impecável”, comenta sua irmã Ione.

Esteve com sua esposa Suelane por vinte anos, uma união que gerou os maiores presentes de sua vida, os filhos: Adeilson Junior e Anna Luísa. Era por eles que Dedel se dedicava tanto à empresa. Para dar uma vida com o máximo de conforto possível. Por vezes, esteve distante, pois fazia viagens longas, mas nos meses seguintes em que ficava em casa, era como se nunca tivesse estado ausente. Ele aproveitava cada momento com os seus.

A felicidade de sua vida era ver os filhos e a esposa felizes. Ione conta que ele fazia questão de orientar muito bem o Junior e a Anna. “Ele era muito de sentar e direcionar os filhos. Dizia a eles: ‘A hora de aprenderem é agora, dentro de casa, comigo. Porque a vida é definida de outra forma. Dinheiro não cai do céu, a gente batalha muito, então vocês têm que estudar, porque estudar é o futuro.’ O tempo que ele tinha com os filhos, que era muito curto, ele tentava aproveitar ao máximo para direcionar a vida deles”.

Nas horas livres, aproveitava para levar a família ao shopping e ao cinema. Quando tinha mais tempo, seu maior prazer era viajar e apresentar a eles os lugares que conhecia. “Uma vez, Dedel levou eles para o Rio de Janeiro de carro para aproveitar todo o tempo possível com a família. Como ele foi caminhoneiro, conhecia o país inteiro. Então ele tinha o maior prazer de apresentar cada coisinha que ele conhecia sempre que ele podia”.

Sua mãe, Dona Céu, lembra que o filho também amava fazer um churrasco e juntar a família. “Nos domingos, ele sempre me ligava e já falava: ‘Mamãe, eu já estou queimando a carninha, mamãe. E a senhora não chegou ainda pra comer.’ Sempre que fazia um churrasco, me convidava para ir”.

Mas se fosse para ir a algum compromisso, não adiantava ligar em cima da hora, pois Dedel tinha o seu ritual especial. Ione conta que “ele passava uma hora de relógio tomando banho. Então, se convidasse ele pra ir na sua casa, tinha que ser com muita antecedência para ele chegar no horário combinado. Era o último a chegar nas festas, mas quando ele sentava, não levantava mais, só na hora de ir embora. Comia com muita tranquilidade e adorava conversar, tinha o dom de ouvir todo mundo”.

Também adorava uma boa música romântica e não perdia a oportunidade de dançar com a esposa. “Se 'tivesse' tocando um sonzinho, ele já estava agarrando ela para dançar. Puxava uma sobrinha, uma irmã e até eu; ele queria me botar no pacote para dançar com ele também.” Gostava de escutar Zezo, Roberto Carlos, algumas músicas de MPB e um forró para dançar bem agarradinho.

Muito querido por todos, ele tinha o costume de, todos os dias, mandar “bom dia” pelo aplicativo de mensagens para todos os contatos dele. “Outra mania que ele tinha, era ficar colocando seu cabelo para traz com a mão. Ele tinha o cabelo super liso e era como se estivesse caindo no rosto”, relata Ione. Dona Céu acrescenta: “Ele também mandava muito canto de louvor da Igreja para mim. Sempre me avisava quando estava passando uma palestra, uma missa na tv”.

Nos últimos tempos, Dedel se encontrava com uma angústia guardada no peito que só conseguia compartilhar com a mãe. “Ele dizia ‘Mamãe, eu 'tô' muito aperreado.’ Ele só dividia os problemas comigo, chorava no meu colo pedindo ajuda a Deus. Depois, quando ele ficou internado, continuava sempre conversando comigo, às vezes, de madrugada, e dizia: ‘Rezando, eu consigo tudo, mamãe. Jesus faz tudo por mim.’”, orgulha-se a mãe.

Sua principal missão foi prover e deixar a família em segurança, o que fez com muita luta e maestria. Ficou à frente da empresa até o último momento em que pôde. Agora, suas aperreações acabaram e sua família está encaminhada.

Sendo assim, Dedel partiu rumo à sua última viagem, a mais duradoura de todas, e agora está sendo guardado por Deus.

Adeilson nasceu em João Pessoa (PB) e faleceu em João Pessoa (PB), aos 39 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela irmã e mãe, respectivamente. de Adeilson, Ione Cristina da Costa Marinho e Maria do Céu da Silva Marinho. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Marina Teixeira Marques, revisado por Renata Nascimento Montanari e moderado por Rayane Urani em 13 de abril de 2021.