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Adevaldo Rodrigues de Oliveira

1962 - 2020

Era o mais brincalhão. Tudo era motivo para fazer festa com a família.

Se, por um descuido, alguém próximo escrevesse o apelido de Adevaldo sem o acento agudo, faria dele a conjugação assertiva da sua existência: devas. Como num ato falho, o presente do subjuntivo resumiria a existência de Devás, sugerindo uma ação desejosa. De dever, de incumbência, de compromisso com o presente ou o futuro. Afinal, Adevaldo sabia que viver do passado não era uma opção.

Quando criança, criado longe dos pais biológicos, Adevaldo sofreu. Por sempre ter consciência dos absurdos a que já foi submetido, lutava por justiça. “Não media esforços. Estava sempre pronto para ajudar os outros”, relata a filha caçula, Beatriz.

Foi na área da saúde que encontrou espaço para ser instrumento do bem. Como técnico em radiologia, fez da vida a entrega à profissão. Amava o trabalho. A carreira foi incentivada pelo doutor Dalton que, durante a juventude de Adevaldo em Goiânia, foi seu mestre, dando oportunidade e aprendizado na área de enfermagem e de radiologia.

A rotina era vivida com intensidade da casa para o trabalho e do trabalho pra casa. Para Adevaldo, tudo era motivo para reunir a família. Beatriz descreve o pai nos dias de festa como “o mais divertido da turma, não deixando ninguém quieto. Era brincalhão, sempre com sorriso no rosto.”

Sabido da condição de diabético e hipertenso, procurava manter a saúde sempre em dia. Priorizava a caminhada e a pelada. Assim, mantinha a carinha de 30 anos. Mas o motivo principal para cuidar da saúde era a responsabilidade em ser o pilar da família. Adevaldo foi pai de cinco mulheres: Patrícia, Pollyane, Rhayane Mickaelly, Rhayany e Beatriz. Nos últimos anos, também conheceu uma nova entrega: ser avô. Carlos Daniel e Heloa Vitória faziam o que quisessem do vô babão.

Com entrega total, pois só sabia ser assim, Adevaldo atuou na linha de frente contra a pandemia. Até o fim, viveu como acreditava: com intensidade e paixão. Na sua ausência, além da saudade, fica o infinitivo do desejo infinito de Adevaldo: ver a família unida e estável.

Adevaldo nasceu em Rondonópolis (MT) e faleceu em Barra do Garças (MT), aos 58 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Adevaldo, Beatriz Lopes Rodrigues. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista , revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 6 de janeiro de 2021.