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Aldair da Costa de Matos

1939 - 2020

Uma senhorinha que conhecia chás, remédios naturais e tudo sobre o amor.

Dona Aldair saiu do interior do Ceará, de Itatira e foi morar na capital: Fortaleza. Duzentos quilômetros separam as duas cidades. Mas fortaleza mesmo era ela, que se mudou junto com os filhos pequenos e trabalhou sozinha para criá-los. Ao todo, foram 19 filhos, todos nascidos de parto natural e em casa. Alguns não chegaram a nascer vivos, outros morreram na infância. Dez filhos sobreviveram – cinco homens e cinco mulheres: José, Valdir, Germano, Gerson, Carlos Alberto, Lenita, Lenilda, Edineuda, Edileuda e Carla Maria.

Enfrentou muitos obstáculos ao longo de sua vida, mas tinha a sua maior arma: a fé. “Minha vozinha era uma mulher de uma fé e de uma força tremenda — o pilar da família. Sempre me recordo que ela levava as netas para a igreja, levava bombons para ficarmos quietas. Pegava as moedinhas que tinha e dava pra gente poder entregar na oferta. Ela guardava uma foto 3x4 de cada filho, neto e bisneto em sua Bíblia e levava com ela, para orar por todos”, conta a neta Ana Carla. Junto com a fé, também estava a coragem e a sabedoria com que criou a família.

Era muito apegada às duas irmãs: Guiomar e Ercília como também à Marieta, sua prima. Uma ia passando na casa da outra, para assim juntarem-se, as quatro, e irem juntas para a igreja Assembleia de Deus. A prima Marieta morreu duas horas após Aldair falecer.

Era uma mulher muito vaidosa, que pintava os cabelos e só saía de casa maquiada e perfumada. Suas roupas estavam sempre muito bem-passadas.

Em 2015, Aldair venceu um câncer. Quatro anos depois, descobriu a falência dos rins e passou a fazer diálise três vezes por semana. Sempre perguntava quando iria parar de ir lá. Nos outros dias da semana, ficava em casa. Seu momento de lazer era ver as pessoas comendo. Ela dizia: "Já que não posso comer, quero ver os outros comendo". Estava muito magra por causa da dieta, por não poder comer de tudo.

Gostava também de assistir ao Globo Repórter quando o assunto era "natureza". Ela também sabia fazer todos os chás possíveis — seus remédios naturais — todos feitos com muito amor. “Como foi criada no interior do Ceará, numa família bastante humilde, nunca ia ao médico na infância, juventude e até mesmo quando se casou. Sempre, quando adoecia, os remédios eram naturais: chá disso e daquilo, amassar uma folha de corama ou esquentar no óleo de coco pra colocar em cima de tumor”, relembra Ana Carla.

Aldair faleceu sem realizar o sonho de reencontrar o filho Carlos Alberto, que desapareceu há mais de trinta e cinco anos. Em agosto de 2020, três meses após sua morte, uma assistente social conseguiu contato com a família informando que Carlos Alberto está vivo e mora em Brasília.

Com certeza, está tendo festa lá no Céu, com a estrelinha Aldair brilhando ao ver que a família ficou completa agora.

Aldair nasceu em Itatira (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 80 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela neta de Aldair, Ana Carla da Costa. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Mateus Teixeira, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 28 de junho de 2020.