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Aluísio Ferreira de Sousa

1935 - 2020

Um contador de anedotas que apreciava a companhia de quase todo mundo, exceto dos bodes.

Um senhor de sentimento sempre jovial, parecia que a alegria de Aluísio iria fazê-lo viver eternamente.

Por mais que tenha revelado sua zanga e seu ciúme algumas vezes, suas qualidades ultrapassavam quaisquer defeitos, e seu jeito brincalhão deixou história. Certa vez, se enfeitou com um vestido longo e floral da filha, foi para sala da casa, dançou e cantou uma marchinha de Carnaval. Naquele dia, ao som de "Roubou minha cueca", matou todo mundo de rir.

Entretido com as piadas que ele mesmo contava, enchia a casa com sua personalidade companheira. Foi um grande parceiro dos filhos. Os dias se passavam e, para qualquer lugar que fosse, andava com a caçula Leila lado a lado. Moravam juntos: ele, a esposa, Leila e a cachorrinha Mel, carinhosamente apelidada por ele de "boneca de ouro do vovô".

Apaixonado pelo futebol, tinha como time de coração a Seleção Brasileira. Era um avô babão pelos 12 netos e dez bisnetos, os quais tratava com o mesmo amor. A filha Leila salienta a importância da presença de Camila na vida de Seu Aluísio, a moça era uma neta de coração. Muito carinhosa, todo ano escolhia uma data de fim de ano para passar com os avós. Quando estavam longe, Aluísio gravava vídeos declarando seu carinho por ela.

Foi agraciado na infância com o zelo da avó que, apesar da humildade, o criou com todo afeto. Viveu seus dias de menino com simplicidade. Dos tempos vividos no interior, lembrava das brincadeiras e dos bolos; bolos esses que nunca recusava, a não ser quando eram confeitados ou de chocolate, dos quais não gostava. Se fossem cacete - típica iguaria maranhense, feito com goma de polvilho -, bolo puba ou de tapioca, comeria com o maior prazer!

A fartura em casa era extremamente importante para Aluísio, que ofereceria seus lanches prediletos a todos que o visitassem. Não que apreciasse qualquer sabor; carne de bode, por exemplo, não comia; aliás não gostava dos bodes de jeito nenhum, chegava a implicar com a família por criá-los em casa. Seu prato preferido era mesmo uma galinha caipira com pirão de parida e fava.

Foi também um batalhador e venceu na vida. Aos vinte e dois anos, recém-casado, teve ajuda do pai até se estabelecer como fiscal do Estado. Trabalhou também como caminhoneiro, em uma empresa de arroz e sozinho em jornada para Tucuruí, tornou-se garçom de um cabaré.

A esposa de Aluísio se lançou com um filho, uma tesoura e uma carretilha de linha, para unir-se ao marido e tornou-se costureira nesse mesmo cabaré. Ali, no Pará, nasceu Leila e juntaram o primeiro dinheiro necessário para comprar roupas em São Paulo. Com as primeiras economias, iniciaram suas vendas como sacoleiros e montaram uma loja. Com muito esforço, o negócio foi crescendo cada vez mais.

Ela retornou ao Maranhão para buscar dois de seus filhos. Compraram uma casa e, quando tudo parecia caminhar bem, a loja, já consolidada, sofreu um incêndio. Esforçados em dar o melhor aos filhos, reconstruíram o espaço e ainda conseguiram comprar outro apartamento, dessa vez na praia.

Casados durante sessenta e três anos, foi por uma brincadeira que passaram a namorar. Leila conta que a história começa com uma provocação que sua mãe fez à então namorada ciumenta de Aluísio: disse que iria tomá-lo se ela continuasse naquele ciúme. Ele escutou, desfez o compromisso e se ofereceu para namorar com ela. A partir desse momento, Aluísio cuidou de sua esposa com um cuidado que ela sente falta. Todos os dias ele passava seu café e deixava a mesa posta com as frutas e o pão que comprava.

Pai protetor, conselheiro e amoroso, Leila relembra que o ama e o amará ao longo de todo tempo que existir. Aluísio deixou saudades de sua presença e do cuidado que tinha com cada um que conviveu.

Aluísio nasceu em São Luis (MA) e faleceu em São Luis (MA), aos 85 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Aluísio, Leila Sousa . Este tributo foi apurado por Talita Camargos, editado por Maya Matta Lopes, revisado por Ana Helena Alves Franco e moderado por Rayane Urani em 22 de julho de 2021.